Três parcerias históricas de Sivuca

Multi-instrumentista, maestro, arranjador, compositor, orquestrador e cantor, Sivuca é um dos grandes gênios da nossa cultura. O artista paraibano estaria completando 96 anos neste 26 de maio e, para celebrá-lo, vamos relembrar algumas das principais parcerias da sua longeva carreira. 

Mais sobre Sivuca

Mestre da sanfona, instrumento do qual foi um dos principais divulgadores na música nacional e internacional, o trabalho de Sivuca se identifica com a bossa-nova, o jazz, o forró, o choro, o baião, o maracatu e o frevo. 

No entanto, predomina o virtuosismo no acordeom e o improviso musical, característico de expressões da Paraíba, como os cantadores de coco.

Compositor de diversas músicas importantíssimas da história da MPB, Sivuca nasceu Severino Dias de Oliveira, em Itabaiana, na Paraíba, no dia 26 de maio de 1930. 

O artista ganhou uma sanfona de presente da sua família quando tinha 9 anos e, aos 15, foi para Pernambuco, participar de programas de calouros. Logo se destacou e passou a apresentar-se na Rádio Clube de Recife

Em 1948, foi contratado pela Rádio Jornal do Commercio, onde atuou até meados da década de 1950. Em 1949, foi convidado para gravar com a cantora Carmélia Alves em São Paulo. 

Carmélia foi a primeira a gravar, em 1951, o baião “Adeus Maria Fulô”, composição de Sivuca e Humberto Teixeira. A música foi o primeiro sucesso nacional de Sivuca e depois foi regravada em uma versão psicodélica e inesquecível pelo conjunto Os Mutantes, em 1968. 

Também em 1951, Sivuca gravou o primeiro seu primeiro álbum de 78 rotações, pela gravadora Continental, com as canções “Carioquinha do Flamengo” (de Waldir Azevedo, Bonfiglio de Oliveira) e “Tico-Tico no Fubá” (de Zequinha de Abreu, sucesso na voz de Carmen Miranda). 

Em 1955, o paraibano foi morar no Rio de Janeiro, contratado pelas Emissoras Associadas de Rádio e Televisão Tupi e estudou teoria musical e harmonia durante três anos com Guerra Peixe. No ano seguinte, lançou “Eis Sivuca”, seu primeiro disco solo, e também gravou seu famoso choro “Homenagem à Velha Guarda”.

Também em 1956, Sivuca partiu para a sua primeira temporada de shows pela Europa, com o grupo “Os Brasileiros”. Desde jovem, Sivuca viajava pelo interior do Nordeste brasileiro, tocando música regional com músicos locais, período de aprendizagem e experimentações, o que lhe concedeu o conhecimento do universo musical nordestino. 

Segundo o artista, essa vivência entre músicos da cultura popular  forneceu as bases de sua obra. Apesar de decisiva, a arte de Sivuca não se resume à influência regional, transitando entre diversos gêneros da música nacional e internacional. 

A partir de 1959, Sivuca foi morar em Lisboa e Paris, sendo considerado o melhor instrumentista de 1962 pela imprensa parisiense. Morou também em Nova York, de 1964 a 1976, e – em 1971,  o músico norte-americano Harry Belafonte o convidou para arranjar e tocar no especial dele e da renomada atriz Julie Andrews, na TV NBC

Sivuca usou violão e sanfona, arranjou para orquestra de cordas e fez, inclusive, o arranjo de uma canção escrita para Julie Andrews homenagear Vincent van Gogh.

Na década de 70, Sivuca compôs trilhas para filmes em curta-metragem da televisão educativa americana, trabalho pelo qual foi indicado ao Grammy Award, com a trilha do filme “Joy”

Nesse período, fez parcerias com artistas como Hermeto Pascoal, Bette Midler e Paul Simon. Em 1975, casou-se com a compositora e compositora Glória Gadelha, com quem passou a desenvolver parcerias artísticas. 

Nessa época, o artista voltou para o Rio de Janeiro e participou da série de espetáculos “Seis e Meia”, com o show “Sivuca e Rosinha de Valença”. Gravado ao vivo, esse tornou-se o primeiro registro do baião “Feira de Mangaio”, parceria com Glorinha Gadelha, considerado um dos maiores clássicos da MPB, que fez muito sucesso na voz de Clara Nunes, que o gravou em 1979, no seu disco “Esperança”.

Em 1977, Chico Buarque escreveu a letra para uma melodia composta por Sivuca em 1947, dando origem a outro grande clássico da música popular brasileira: a canção “João e Maria”, única parceria dos dois compositores, sucesso em um duo de Chico e Nara Leão nesse mesmo ano, no disco “Os Meus Amigos Um Barato”, de Nara.

Em 1985, Sivuca escreveu a sua primeira peça sinfônica: “Concerto Sinfônico para Asa Branca”, inovando ao mobilizar a orquestra pela ótica do acordeonista. 

Em 2003, voltou à Paraíba, onde seguiu trabalhando. No ano seguinte, em Recife, gravou com a Orquestra Sinfônica da cidade, o clássico disco “Sivuca Sinfônico”. Três anos depois, compôs seu último arranjo sinfônico, “Choro de Cordel”, com Glorinha

Sivuca faleceu em 2006, aos 76 anos, vítima de um câncer, mas o seu legado permanece vivo para as próximas gerações.

Muitas de suas partituras foram doadas por sua viúva ao acervo da “Fundação Joaquim Nabuco”, do Recife. A doação à instituição pernambucana deveu-se a uma dívida de gratidão que o próprio artista dizia ter com o Recife em sua formação musical. 

Parcerias históricas de Sivuca

1 – Humberto Teixeira

A primeira música de Sivuca gravada foi uma parceria com Humberto Teixeira: o baião “Adeus Maria Fulô”, de 1951, fez imenso sucesso – primeiro na voz de Carmélia Alves e, depois, por nomes como: Os Mutantes, Joyce Moreno, Gal Costa e o próprio Sivuca.

Outros sucessos de Sivuca em parceria com Humberto Teixeira, são as canções:

  • Baião do Salvador (1951)
  • Fogo Pagô (1958)

2 – Glória Gadelha

O maior sucesso nascido da parceria de Sivuca com Glória Gadelha – que também era sua esposa, sua parceria no amor e na vida – foi a canção “Feira de Mangaio”, lançada em disco pela cantora Clara Nunes, em 1979, em seu álbum “Esperança“. Antes, em 1977, a música já tinha sido apresentada no show que virou álbum ao vivo “Sivuca e Rosinha de Valença”.

Mas, a parceria de Sivuca e Glorinha vai muito além. Outros sucessos composto pela dupla são: 

  • Nunca Mais Eu Vi Esperança (1978)
  • Energia (1980)
  • Frevo Sanfonado (1980)
  • Como é Grande e Bonita a Natureza (1981)
  • Cheirinho de Mulher (1987)
  • Arco-Íris (1990, também parceria com Moraes Moreira)

3 – Chico Buarque 

Apesar de Sivuca e Chico Buarque terem apenas uma composição em parceria, ela é tão importante para a música popular brasileira, que não pode ficar de fora dessa lista: estamos falando da canção “João e Maria”, sucesso imenso em um duo de Chico e Nara Leão, lançada no disco “Os Meus Amigos Um Barato”, de Nara, em 1977.

A canção ganhou ainda mais projeção quando entrou para a novela de sucesso “Dancing Days”, da Rede Globo, em 1978.

A melodia da canção foi composta por Sivuca em 1947, quando Chico Buarque tinha apenas três anos e Sivuca 17. Por 30 anos, a música seguiu sem nome, servindo às serenatas de seu autor.

Segundo Chico, em 1976, Sivuca enviou a ele uma fita com esta valsinha que havia composto em 47, e ele então compôs a letra baseada em um diálogo de crianças, pois além de ter sido composta quando Chico ainda era uma criança, aquela canção remetia a um tema infantil.

Naquela época, Chico Buarque estava em uma fase de compor músicas infantis e havia acabado de adaptar o musical italiano “Os Saltimbancos” para o português. A peça, apesar de infantil, também tratava de temas políticos. 

E neste contexto surgiu “João e Maria”, uma canção sobre um relacionamento, ou um ciclo, que chega ao fim, mas que também trata de temas políticos, ao criticar regimes autoritários, como o que o Brasil estava passando na época da composição: a Ditadura Militar. 

Assim, além da clara referência aos soldados nazistas, Chico ainda estaria falando dos bedéis, inspetores disciplinares que na época da ditadura atuavam como dedos duros nas universidades, e juízes que serviam ao regime.

O nome da canção remete ao clássico conto de fadas dos Irmãos Grimm, no qual duas crianças que se perdem na floresta por terem marcado o caminho com migalhas de pão e são capturadas pela bruxa malvada.

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