Qual a mãe que, durante a criação de um filho, nunca se sentiu sozinha? As muitas
camadas que envolvem a experiência da maternidade solitária serviram de inspiração para “Solo”, livro de estreia da jornalista Marcella Franco, publicado pela editora Bazar do Tempo.
Com ilustrações de Paula Schiavon, e destinado a todas as idades, a obra apresenta duas vozes que se espelham, a da mãe e a do filho, para retratar uma vivência compartilhada por milhões de famílias.
‘Solo’
De um lado, uma mulher que decide, e que todos os dias precisa decidir de novo. De outro, uma criança que cresce, observa, confia e descobre o mundo sem jamais se sentir só.
“O argumento de ‘Solo’ veio de duas experiências muito ricas. A primeira, claro, a maternidade solo de fato, que foi minha realidade por uma década. A outra foi a aproximação desse universo infantil de maneira profissional”, afirma Marcella Franco, que por anos esteve à frente da Folhinha, suplemento infantojuvenil da Folha de S.Paulo.

Famílias chefiadas por mulheres
Criar um filho sozinha envolve uma série de fatores que aparecem em diferentes momentos, inclusive juntos e misturados: a sobrecarga prática do dia a dia, a solidão das decisões sem partilha, a reinvenção constante da própria identidade, o medo que convive com o amor, e a potência silenciosa de quem não para.
São mulheres que trabalham, cuidam, adoecem, se recuperam, riem e continuam, muitas vezes sem rede de apoio, sem modelo anterior, sem um roteiro pronto.
No Brasil, em torno de oito milhões de famílias são chefiadas por mulheres sem cônjuge, segundo dados do Censo do IBGE de 2022. A maternidade solo é, portanto, uma realidade social ampla, diversa e ainda pouco representada na literatura destinada ao público infantil.
Viés da ficção
‘Solo’ não procura simplificar esse universo, mas retratá-lo pelo viés da ficção com honestidade e afeto. Na obra, enquanto a mãe enfrenta medos, dúvidas e desafios cotidianos, o filho descobre o mundo com curiosidade e alegria, e experimenta o resultado desse amor em forma de proteção, humor e confiança.
A trajetória da autora no comando de um suplemento infantil a ajudou a encontrar o tom ideal para dar voz às personagens.
“Ali eu compreendi as sutilezas do discurso de uma criança e o peito aberto que se pode ter quando a vida ainda é um grande ensaio para o futuro. Não raro havia situações em que entrevistava responsáveis e seus filhos e filhas para a mesma reportagem, e essa polifonia, juntando dois pontos de vista por vezes tão distintos, foi me chamando a atenção e me instigando”, explica.
“Imaginei uma história em que essa generosidade infantil se expande a ponto de redimir o desassossego que invariavelmente afeta a responsabilidade pela criação de um ser humano”, complementa.
Essa dupla perspectiva revela o que habitualmente fica fora de cena: amar e ser amado são atos diferentes, mas igualmente complexos e belos. E uma família de dois também pode configurar uma família inteira.
Ilustrações de Paula Schiavon
Essa estrutura também orientou a criação das ilustrações de Paula Schiavon. Para abordar visualmente a narrativa que fala de sentimentos intensos que acompanham essa jornada solo, a premiada artista visual buscou explorar também nas imagens o uso de metáforas e signos, intercalando com a literalidade de alguns momentos.
“Eu me apoiei nessa dualidade de visões. Na parte da mãe, quis dar espaço ao vazio da página. Já na parte do filho, as ilustrações preenchem todo o espaço”, explica.
No sábado, 16/05, a autora vai participar de uma conversa com as jornalistas Aline Midley e Fabiane Pereira (eu mesma) na Janela Livraria na rua Maria Angélica, 171, no Jardim Botânico, às 16h.


