Um panorama das eleições peruanas

Um breve histórico para entender os desafios políticos do Peru

Foto: Wikipédia

Nas últimas semanas temos acompanhado – para além dos jogos da Copa do Mundo – os resultados das eleições do Peru. A vitória de Keiko Fujimori (Força Popular) chamou a atenção nos noticiários, tanto como crítica quanto como celebração, por ser mais uma proposta conservadora na América Latina.

A campanha de Fujimori, que venceu no segundo turno Roberto Sánchez (Juntos pelo Peru) com 50,1% dos votos, foi marcada por discursos contra a corrupção política, a insegurança e a estagnação econômica e por prometer um governo técnico que garanta um Estado presente. Tendo sido contestada a vitória por parte de Sánchez, o que chama mais a atenção no processo não são as manifestações contrárias à vitória da Força Popular, mas sim a real crise que novo governante herdará e os desafios que terá que enfrentar no novo governo.

Desde 2017, o Peru assiste a uma contínua crise sucessória e diversos presidentes acusados. Após o término no mandato de Ollanta Humala (PNP) em 2016 – político apoiado por Hugo Chaves (Venezuela), Evo Morales (Bolívia), Lula e Dilma –, investigações passaram a apontar diversos supostos casos de irregularidade em seu governo. Condenado, juntamente com sua esposa, foi supostamente associado a uma lavagem de dinheiro recebido de empreiteiras brasileiras que teriam beneficiado suas campanhas eleitorais.

Depois da saída de Humala, o Peru não conseguiu mais se estabilizar politicamente. Seu sucessor, Pedro Pablo Kuczynski (PPK), descrito como centro-direita, chega ao poder em 2016. Porém, logo no ano seguinte, diversas denúncias de suposta corrupção envolvendo suas empresas de consultoria e – novamente – empreiteiras brasileiras levam o Kuczynski a enfrentar processos de impeachment e a renunciar em 2018. Assume o governo o vice-presidente, Martín Vizcarra (PPK).

Esse último também não termina seu mandato. Enfrentando um processo de impeachment, Vizcarra foi considerado moralmente incapaz de governar o Peru. Alegava-se que o político, atuando como governador de Moquegua em 2014, supostamente teria recebido propina de empresas privadas. Mesmo rejeitando as acusações e com grande apoio da população, Vizcarra é retirado do cargo em 2020, e Manuel Merino (Ação Popular) assume por 5 dias a presidência.

Em meio à pandemia de Covid-19, portanto, o Peru teve 4 presidentes. O terceiro, Francisco Sagasti (Partido Morado), assume um mandato de um ano e procura ajustar a crise política e acelerar o protocolo de vacinação. Em 2021, diante de novas eleições, Pedro Castillo (Peru Livre) assume a presidência após uma conturbada campanha eleitoral. Com uma agenda anti-neoliberal e apoiado por ex-presidentes latino-americanos – como Lula, José Mojuica (Uruguai) e Evo Morales –, Castillo alega “tentativa de golpe de Estado” e procura fechar o congresso.

Ao perder apoio de sua própria base, o congresso reage e abre o processo que, em 2022, levaria o presidente ao impeachment. Castillo é detido e preso sob a acusação de conspiração e tentativa de rebelião.

Depois de Castillo, o país se afunda em uma segunda onda da crise política: entre 2022 e 2025. Dina Boluarte (Peru Livre), vice de Castillo, assume com um discurso contrário ao partido e ao ex-presidente destituído. Com um governo impopular e marcado pela repressão a manifestações pró-Castillo, Boluarte é alvo de um novo processo de impeachment por corrupção e enriquecimento ilícito. José Jeri (Somos Perú), então presidente do congresso, assume a presidência e governo de 2025 a 2026, quando é afastado por acusações de suposto abuso sexual, corrupção e enriquecimento ilícito.

Por fim, nesse ano, assumiu o cargo José María Balcázar (Peru Livre). Contudo, não entregará o cargo ao novo presidente em julho sem passar por um processo de investigação por apropriação ilícita de fundos em 2019. Keiko Fujimori, por sua vez, é uma política experiente, que concorreu nas demais eleições e chegou em todas ao segundo turno. Diante dessa crise, a nova governante terá o desafio de estabilizar politicamente o Peru e resolver as demais crises internas que derivam do problema de governança.

**A coluna não expressa, necessariamente, a opinião do Grupo Thathi de Comunicação

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