Ninguém é contra as homenagens para a seleção canarinho na Copa do mundo. A população comemora as vitórias e o reconhecimento do Brasil como a terra do futebol. Todos sabem de cor o nome dos valentes atletas e comemoram as vitórias contra equipes consideradas as mais importantes do mundo. Principalmente as seleções europeias.
O orgulho nacional vai além das vitórias no campo – é a recuperação do orgulho nacional, tão maltratado pelas avaliações que são difundidas pela imprensa mundial. Baixo índice educacional, atendimento precário da saúde, ampla maioria sem esgoto ou tratamento sanitário. E o que mais magoa os moradores da terra tupiniquim é o Brasil ser considerado um dos países com maiores índices de corrupção. Há uma associação entre políticos, empreiteiras e empresas estatais. A performance nos campos de futebol pode desviar o noticiário para outros rumos que não as críticas e denúncias.
Há uma controvérsia entre governantes de diversos níveis de como premiar os jogadores. Começa na presidência da República e chega aos cofres dos municípios. Os exemplos anteriores, quando o Brasil ganhou Copas do mundo, se resumiram em desfile pelas ruas da capital do país em carro de bombeiros, passagem pelas principais avenidas das grandes cidades, multidão no aeroporto e povo nas ruas.
A comemoração é tão grande que todos param de trabalhar durante a passagem do cortejo, e dos escritórios são jogadas toneladas de papel picado. Lembra a festa de Nova York com o fim da Segunda Guerra Mundial! Escolas têm as aulas suspensas e o funcionalismo é abençoado com a decretação de mais um ponto facultativo. A vitória é explorada pelo governo central como um verdadeiro renascimento, um momento mágico capaz de encobrir os maus resultados no avanço das políticas sociais. Não faltam canções, sorrisos, camisas amarelas, e cara pintada de verde-amarelo. Jovens e adultos ficam juntos. A direita e a esquerda também.
Os craques da seleção canarinho, depois de uma parada na capital do Brasil, são convidados pela prefeitura de São Paulo para receberem uma premiação mais do que merecida pelo sucesso da jornada. As montadoras de veículos se concentram no estado de São Paulo e nada mais justo que eles recebam como mimo um carro de presente.
O prefeito da capital, Paulo Maluf, prepara uma grande festa e encomenda 25 Fuscas verde-musgo, zerinho-zerinho como diz o animador Silvio Santos. Um para cada craque. Todos os carros são distribuídos entre jogadores e comissão técnica. A cor verde até lembra que o Brasil é dirigido por uma ditadura militar. Nada acontece por acaso.
Sobre o porta-malas do Fusca uma dúzia de rosas vermelhas; no parabrisa traseiro, além do emblema da concessionária – não se perde uma possibilidade dessas – um plástico em que se lê “Brasil, ame-o ou deixe-o”. O custo vai parar no bolso do pagador de IPTU, avaliado em aproximadamente 4 milhões de reais. O ponta-direita Jairzinho confessa que é o primeiro carro de sua vida. Começa um processo contra o prefeito que vai se arrastar por 36 anos, até ser inocentado.


