O crescimento dos jogos de azar online tem despertado preocupação entre especialistas em saúde mental devido à associação da prática com transtornos psiquiátricos, endividamento, prejuízos sociais e aumento do risco de suicídio. A avaliação consta em um editorial publicado no periódico científico Indian Journal of Psychiatry, assinado por pesquisadores que defendem uma abordagem de saúde pública para enfrentar o problema.
Segundo os autores, embora parte das plataformas se apresente como oferecendo “jogos de habilidade” para contornar legislações sobre apostas, o Transtorno de Jogo (TJ) é reconhecido internacionalmente como uma condição médica grave, com impactos que vão além das perdas financeiras.
Transtorno é reconhecido por classificações internacionais
O Transtorno de Jogo está oficialmente incluído na Classificação Internacional de Doenças (CID-11) e no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5).
De acordo com o estudo, a condição deixou de ser classificada apenas como um transtorno do controle dos impulsos e passou a integrar o grupo dos transtornos relacionados a substâncias e comportamentos aditivos, após evidências de que compartilha mecanismos neurobiológicos e fatores genéticos semelhantes aos observados nas dependências químicas. A CID-11 também diferencia os casos relacionados aos jogos presenciais e às plataformas online.
Pandemia acelerou crescimento das apostas virtuais
Os pesquisadores apontam que a pandemia de Covid-19 impulsionou a expansão dos jogos de azar na internet. O isolamento social, a instabilidade financeira e o aumento de quadros de ansiedade favoreceram o crescimento desse tipo de atividade.
Entre os fatores apontados para o avanço do setor estão a facilidade de pagamentos digitais, a promessa de ganhos financeiros rápidos e campanhas publicitárias intensificadas nas plataformas digitais.
Jovens estão entre os grupos mais vulneráveis
O levantamento destaca que os usuários de jogos de azar online são, em média, cerca de 10 anos mais jovens do que os frequentadores de modalidades tradicionais de apostas.
Segundo os autores, características como menor controle dos impulsos, processo de maturação ainda em desenvolvimento, influência de grupos sociais e intensa exposição ao marketing digital aumentam a vulnerabilidade desse público.
Além disso, o ambiente virtual facilita o acesso às apostas por permitir participação a qualquer momento, oferecer anonimato e exigir, em muitos casos, baixo investimento inicial.
Estudo aponta associação com depressão e comportamento suicida
O editorial destaca que o Transtorno de Jogo está associado a uma série de consequências psicossociais, incluindo endividamento, dificuldades familiares, problemas de moradia, episódios de violência doméstica e depressão.
Segundo os pesquisadores, aproximadamente 90% das pessoas com Transtorno de Jogo apresentam pelo menos outro transtorno mental diagnosticável, enquanto mais de 60% convivem com três ou mais comorbidades psiquiátricas.
Em relação ao comportamento suicida, os dados reunidos no estudo indicam que:
- Cerca de um em cada cinco pacientes com Transtorno de Jogo já tentou suicídio, segundo pesquisas realizadas nos Estados Unidos;
- No Reino Unido, pessoas com o transtorno apresentam seis vezes mais chances de desenvolver pensamentos suicidas e 15 vezes mais probabilidade de tentar suicídio em comparação com a população geral;
- Mesmo após considerar fatores como depressão e dificuldades financeiras, indivíduos com o transtorno permanecem com cerca de três vezes mais risco de pensar ou tentar o suicídio;
- O endividamento e o sentimento de vergonha aparecem entre os principais fatores associados ao comportamento suicida.
Procura por tratamento ainda é reduzida
Apesar dos impactos observados, o estudo aponta que apenas 8% dos apostadores procuram ajuda profissional, geralmente quando o sofrimento psíquico já se encontra em estágio avançado.
Entre as abordagens terapêuticas com evidências de eficácia estão a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), as entrevistas motivacionais, os grupos de apoio, como os Jogadores Anônimos, e tratamentos medicamentosos quando indicados.
Especialistas defendem medidas de saúde pública
Os autores concluem que o enfrentamento do problema não deve se limitar à responsabilização individual dos jogadores. Segundo eles, o crescimento dos jogos de azar online exige uma resposta baseada em políticas públicas, com participação de autoridades de saúde e legisladores na criação de regulamentações, medidas preventivas e estratégias voltadas à redução dos danos causados pelo transtorno.
Eles também defendem que ações de prevenção, fiscalização e acesso ao tratamento sejam fortalecidas diante da expansão das plataformas de apostas e do aumento dos impactos observados sobre a saúde mental da população.

