A excomunhão aplicada no início do mês sobre a Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), de caráter latae sententiae – aquela sentença que não necessita de um processo da justiça eclesiástica para ser imposta, mas é validada automaticamente após um determinado ato –, colocou em evidência, mais uma vez, os dilemas que a Igreja de Roma vive desde o século passado. Ao ordenar novos bispos sem consentimento papal, a Fraternidade repete a decisão do Arcebispo Marcel Lefebvre em 1988 e, assim como naquela ocasião, foi novamente considerada cismática.
Fundada em 1970 por Lefebvre, a Fraternidade declara que seu objetivo é o de manter em prática as tradições da própria Igreja anteriores ao Concílio Vaticano II (1963-1965). Entre esses ritos, a manutenção das missas tridentinas é, em geral, a que chamam mais atenção. Para além das missas serem celebradas em latim de acordo o rito do Concílio de Trento (1570), editado pela última vez em 1962 pelo papa João XXIII, são também compostas de menos leituras, de maior rigor quanto às vestimentas e de um aprofundamento das reflexões. Até mesmo por isso, em comparação ao Novus Ordo Missae (Missa Nova) (1969), o rito tradicional da Igreja faz com que o fiel mantenha mais atenção às coisas sagradas e à elevação espiritual do que aos elementos materiais presentes durante o rito.
Porém, as diferenças das celebrações e o questionamento aos novos ritos e doutrinas da Igreja não são exclusividade da Fraternidade e estão presente em diversas outras ordens e congregações que estão em comunhão com Igreja Católica de Roma. Ainda que grupos que defendam um maior apego às tradições religiosas relatem algum nível de perseguição e tentativas de silenciamento por parte de outros grupos adeptos à reforma e ao progresso da doutrina, o que levou os lefebvrianos à segunda excomunhão foi o fato de terem dado a entender que desobedeceriam à autoridade papal.
A obediência, dessa forma, aparece como principal valor da doutrina Católica Apostólica Romana. Ela é a virtude que diferencia a Igreja de todas as outras denominações cristãs e que faz com que o papa mantenha ao longo dos séculos o governo temporal e espiritual de Roma e dos católicos. Mas, afinal, o que é obedecer?
Nos relatos de teólogos e tratadistas, a obediência aparece sempre atrelada ao sacrifício da própria vontade. Recorrendo a um célebre texto medieval de 1335, do bispo castelhano Alvaro País, a obediência é descrita como “a mortificação dos membros com deliberado e vívido espírito. […] o verdadeiro obediente navega no mar ou cai no meio dos ladrões, não curará dos perigos. Também não distingue o que lhe mandam, pois sabe firmemente que o risco superveniente lhe será imputado como martírio, por isso que cumpriu a obediência sem as distinções da prudência humana.” Dessa forma, obedecer a um superior, no caso o papa, afastaria o sacerdote ou o fiel do orgulho e vanglória.
Mas, se o dilema fosse somente esse, seria simples. Obedecer também é submeter-se à tradição e aos ensinamentos antigos, às lições teológicas, às reflexões filosóficas. Muitas vezes é assumir que o presente e o futuro são inferiores em sabedoria e em conhecimento do que o passado e que preservar pode ser um convite maior ao sacrifício e martírio se comparado à mudança e ao progresso. A excomunhão aplicada sobre a FSSPX, assim, reflete o dilema da Igreja iniciado no fim do século XIX e presente desde então. Coloca o Vaticano e os fiéis para escolher entre duas visões de mundo pautadas na obediência.
**A coluna não reflete, necessariamente, a opinião do Grupo Thathi de Comunicação

