A imprensa, o Estado e a moral dos povos livres

“A imprensa e o dever da verdade”, de Rui Barbosa

Foto: Reprodução Wikipédia

A imprensa é a vista da nação, diz-nos Rui Barbosa, intelectual brasileiro, lembrado por ter participado ativamente do surgimento da República. Sem ela, o corpo social se perde, é enganado, roubado e ameaçado. Saudável e livre, seria a peça fundamental dos seres morais e civilizados. Degenerada, a imprensa constituiria um país cego, “de ideias falsas e de sentimentos pervertidos”, incapaz de se opor aos vícios de suas instituições.

Defensor da abolição da escravatura e das garantias individuais, Rui Barbosa foi assíduo pregador da liberdade de imprensa. Apesar de sua formação em Direito e sua atuação na política, nunca deixou de atuar como jornalista e escritor, colecionando uma vasta experiência em redações e colunas da imprensa. Nesses postos, Rui Barbosa dedicou-se a publicar editoriais e discursos que denunciavam a pressão política nos veículos publicitários e aludiam à honestidade jornalística.

Entre outros de seus célebres discursos que vieram à prensa, destaca-se “A imprensa e o dever da verdade”, no qual Barbosa reflete sobre o papel da publicidade em garantir a liberdade do povo diante do Estado republicano. O discurso, que não pôde ser proferido por motivos de saúde, teria sido encomendado em 1920 para levantar fundos destinados a uma entidade filantrópica da Bahia. Nele, Rui Barbosa, que fora membro ativo do Partido Liberal durante o império, agora tece críticas ao Estado recém-constituído: “No Brasil, a monarquia não padeceu, sensivelmente, desse vício. Mas a República, adernando logo ao começo da sua inauguração constitucional, como a nau que mete água dentro ao sair do porto, simpatizou com esses modelos”.

O vício e os modelos que o orador observava eram os da corrupção da imprensa, isto é, de que em uma nação o Estado se apoderasse ou instrumentalizasse os meios de comunicação corrompendo seu compromisso com a verdade. Dirigindo-se especificamente às repúblicas que nasciam na América Latina, Barbosa descreveu que era de costume nesses sistemas presidencialistas que a imprensa, assumindo praticamente a função ministerial que fora própria do parlamento na época das monarquias, fosse a primeira atacada. Era necessário que o Estado a inutilizasse para que os projetos partidários e de políticas centralizadoras fossem mascarados diante da população.

O texto de Rui Barbosa, entretanto, não foi uma crítica dirigida somente aos presidentes, mas foi, sobretudo, uma denúncia sobre o silêncio dos grandes. Ao silenciarem, os grandes veículos da imprensa demonstrariam condescendência ao viés tirânico do Estado e romperiam as âncoras morais humanas: o amor pela pátria, o amor pela liberdade e o amor pela verdade.

Rui Barbosa, reforçando a hierarquia moral, concluiu que, se pela pátria damos a vida e pela liberdade renunciamos a ela, pela verdade – âncora maior do homem – somos capazes de entregar ambas, pátria e liberdade. Por fim, de acordo com essas reflexões do autor, é para garantir a moral dos povos livres que a imprensa existiria de forma moralizada, isenta e livre: “Moralizada, não transige com os abusos. Isenta, não cede às seduções. Livre, não teme os potentados”.

 

**A coluna não expressa, necessariamente, a opinião do Grupo Thathi de Comunicação. 

        

 

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