A epidemia da solidão

Jhon Fuentes
Jhon Fuentes
Neuropsicólogo, psicólogo escolar, psicólogo clínico especializado em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), atuando nos tratamentos de Depressão, Ansiedade, Síndrome de Burnout, doenças psicossomáticas e situações com sequelas graves de violência doméstica.

Você já se sentiu sozinho, mesmo estando cercado de pessoas?

Talvez você já tenha vivido isso. Estar em um ambiente cheio de gente, conversar com várias pessoas ao longo do dia e, ainda assim, sentir um vazio difícil de explicar.

Essa sensação é mais comum do que imaginamos. E não significa fraqueza, falta de gratidão ou incapacidade de se relacionar. A solidão é uma experiência humana que pode atingir qualquer pessoa.

O que os dados mostram

Nos últimos anos, a solidão passou a receber mais atenção da comunidade científica. Em 2023, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu esse tema como uma importante questão de saúde pública, devido aos impactos que pode causar na saúde física e mental.

No Brasil, a pesquisa do Datafolha de 2024 apontou que 54% dos brasileiros se sentiram sozinhos no último anos. Entre jovens de 18 a 29 anos, esse número sobe para 68%. E não é só no Brasil. Nos EUA, o relatório do Surgeon General chamou a solidão de “tão perigosa quanto fumar 15 cigarros por dia.”

Aumenta risco de AVC, depressão, ansiedade e até morte precoce. Também indicam que muitas pessoas relatam ter se sentido sozinhas em algum momento do último ano, especialmente entre os jovens. Isso mostra que, embora estejamos cada vez mais conectados pela tecnologia, nem sempre nos sentimos verdadeiramente conectados uns aos outros.

É importante lembrar que solidão não é apenas estar sozinho. Muitas vezes, ela aparece quando sentimos que não pertencemos, que não somos compreendidos ou que não temos com quem compartilhar o que realmente estamos vivendo.

O que acontece no cérebro?

O ser humano foi biologicamente preparado para viver em comunidade. Nossos vínculos têm um papel importante na forma como regulamos emoções, enfrentamos dificuldades e encontramos segurança.

Quando a solidão se prolonga, o organismo pode responder aumentando o estado de alerta e os níveis de estresse. Isso pode influenciar o sono, o humor, a ansiedade e até a forma como interpretamos situações do dia a dia.

Às vezes, uma mensagem sem resposta ou um convite recusado pode ser percebido como rejeição, mesmo quando não existe essa intenção. Esse olhar mais sensível para possíveis ameaças pode fazer com que a pessoa se afaste ainda mais, criando um ciclo difícil de romper.

Por isso, dizer simplesmente “saia dessa” não costuma ajudar. Antes de tudo, é preciso acolher a dor e compreender o que ela está comunicando.

Por que isso parece tão frequente hoje?

Vivemos em uma época de muitas conexões digitais, mas nem sempre de encontros significativos.

As redes sociais podem aumentar comparações, dando a impressão de que todos estão felizes, realizados e acompanhados o tempo todo. Ao mesmo tempo, muitos espaços de convivência foram perdidos ou diminuíram: refeições em família, encontros espontâneos, atividades comunitárias e momentos de convivência sem a pressão de produzir ou mostrar resultados.

Tudo isso pode contribuir para uma sensação crescente de isolamento.

O que pode ajudar?

Não existe uma solução única, mas alguns caminhos têm mostrado resultados importantes tanto na prática clínica quanto nas pesquisas.

Cuide do básico. Dormir bem, alimentar-se adequadamente, praticar atividade física e respeitar momentos de descanso ajudam a regular o organismo e favorecem o equilíbrio emocional.

Priorize relações significativas. Não é a quantidade de contatos que faz diferença, mas a qualidade dos vínculos. Uma conversa sincera, um café sem distrações ou um telefonema podem ter muito mais impacto do que centenas de interações superficiais.

Participe de algo maior que você. Atividades voluntárias, grupos, esportes, projetos sociais, comunidades religiosas ou culturais fortalecem o sentimento de pertencimento e propósito.

Procure ajuda quando necessário. Se a solidão tem sido intensa, persistente ou vem acompanhada de tristeza, ansiedade ou perda de interesse pela vida, buscar apoio psicológico pode ser um passo importante. Pedir ajuda não é sinal de fraqueza; é um ato de cuidado consigo mesmo.

Para finalizar

A solidão costuma falar baixo. Ela pode fazer a pessoa acreditar que ninguém se importa ou que pedir ajuda será um peso para os outros.

Mas, na maioria das vezes, essa percepção não corresponde à realidade.

Todos nós precisamos de vínculos. Precisamos de pessoas com quem possamos conversar, compartilhar alegrias, dificuldades e até mesmo o silêncio.

Se hoje você tem se sentido sozinho, comece com um pequeno passo. Envie uma mensagem, aceite um convite, faça uma caminhada com alguém ou procure um espaço onde possa se sentir acolhido.

Ninguém foi feito para enfrentar a vida completamente sozinho. E reconhecer isso pode ser o primeiro passo para reconstruir conexões e cuidar da própria saúde emocional.

“O antídoto para solidão não é apenas estar perto de alguém, mas construir relações onde o amor, a escuta e a presença sejam reais.”

Até semana que vem.

COMPARTILHAR:

Participe do grupo e receba as principais notícias de Campinas e região na palma da sua mão.

Ao entrar você está ciente e de acordo com os termos de uso e privacidade do WhatsApp.

NOTÍCIAS RELACIONADAS