Carência afetiva: quando o medo da solidão faz você aceitar qualquer amor

Jhon Fuentes
Jhon Fuentes
Neuropsicólogo, psicólogo escolar, psicólogo clínico especializado em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), atuando nos tratamentos de Depressão, Ansiedade, Síndrome de Burnout, doenças psicossomáticas e situações com sequelas graves de violência doméstica.
imagem: Pexels

Vamos ser honestos aqui.

Tem gente que dorme acompanhada e acorda se sentindo sozinha.  
Tem gente com 800 contatos e ninguém pra chamar de madrugada.  
Isso não é drama. É carência afetiva. E dói no corpo também.

Não é sobre estar sozinho. É sobre não se sentir pertencente.

O QUE A GENTE VÊ NOS DADOS

A OMS em 2023 cravou: solidão é risco de saúde pública. 
No Brasil, a Datafolha de 2024 mostrou que 54% dos brasileiros se sentiram sozinhos no último ano. Entre jovens de 18 a 29 anos, 68%. 

Curioso, né? A geração mais conectada da história é a que mais se sente só.

O QUE A NEUROCIÊNCIA FALA

Quando você se sente sozinho, seu cérebro entende como ameaça. Lá atrás, ficar fora da tribo era risco de morte. Hoje não morre, mas o corpo reage igual.

Acontece isso aqui:

1. Cortisol sobe. Você fica mais ansioso, irritado, com sono ruim.

2. Ocitocina e serotonina caem. São os hormônios do abraço e do bem-estar. Sem eles, vem aquele vazio no peito.

3. A amígdala fica ligada. Você começa a achar que todo mundo te ignora. Um “visualizado” vira rejeição. O cérebro distorce tudo.

É por isso que quanto mais sozinho você se sente, menos vontade dá de falar com alguém. É o cérebro te protegendo do jeito errado.

O QUE OS PSICÓLOGOS GRANDES DIZEM

Brené Brown fala uma coisa que eu amo: “Conexão é a energia que existe quando duas pessoas se veem e se sentem vistas”. Solidão não é falta de gente por perto. É falta de gente que te enxerga de verdade.

John Bowlby, pai da teoria do apego, já dizia: a gente passa a vida inteira buscando um porto seguro. Quando criança, eram nossos pais. Adulto, vira parceiro, amigo. Quando esse porto falha, vem a carência.

Augusto Cury bate na mesma tecla: carência afetiva não é falta de amor dos outros. É excesso de abandono de si mesmo. Você se deixa por último o tempo todo esperando que alguém te escolha. E ninguém te escolhe porque você mesmo já se abandonou.

A DIFERENÇA ENTRE SOLIDÃO E CARÊNCIA

Preciso te explicar isso porque confunde:

Solidão é a dor de estar só. Você sente falta de gente.

Carência é a dor de não se sentir suficiente. Você sente falta de você. E aí aceita qualquer migalha só pra não ficar só.

Quem está carente não quer amor. Quer alívio. E alívio passa rápido. Por isso repete o ciclo.

Sabe aquela pessoa que sai de um relacionamento ruim e já entra em outro igual? Não é dedo podre. É carência tentando tampar a solidão.

COMO SAIR DISSO? NÃO É COM FRASE PRONTA

 Vou te falar o que funciona com meus pacientes:

1. Para de correr de você.  
Fica 10 minutos em silêncio sem celular. Dói? Dói. Mas é aí que você começa a se escutar. Carência grita quando você se ignora.

2. Troca curtida por presença. 
Marca um café. Sem celular na mesa. Olho no olho. Abraço libera ocitocina. Comentário não.

3. Aprenda a se acolher.  
Pergunta: o que eu falaria para um amigo meu que está se sentindo assim? Fala isso para você. A gente é cruel com a gente mesmo.

4. Procura tribo, não plateia.  
Igreja, grupo de corrida, voluntariado, terapia em grupo. Lugar onde você tem nome. Onde sentem sua falta. Plateia bate palma. Tribo te segura.

PRA FECHAR

Se você está se sentindo assim hoje, respira. Você não é quebrado. Você é humano.
A gente não foi feito para dar conta de tudo sozinho. Fomos feitos para vínculo, para mesa cheia, para conversa boba, para choro compartilhado.

Solidão e carência não se curam com mais gente. Se curam com vínculo de verdade. Começando por você com você mesmo.

Até a próxima semana!

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