Aos 80 anos, completados em 6 de julho, Toquinho continua fazendo das seis cordas uma extensão do próprio coração — e transformando técnica, memória e delicadeza em música.
Para celebrar a data, o Vozes da Vez preparou uma edição especial dedicada à vida, à obra e ao legado do cantor, compositor e violonista, um dos nomes mais importantes da cultura brasileira. Ao longo do programa, Toquinho revisitou os caminhos de uma trajetória iniciada há mais de seis décadas, falou sobre sua formação, seus encontros musicais e a relação que mantém com o violão desde a juventude.
Nascido em São Paulo como Antonio Pecci Filho, Toquinho começou a estudar música ainda jovem e teve entre seus professores o violonista Paulinho Nogueira. A curiosidade diante do instrumento logo se transformou em ofício. Vieram os primeiros palcos, o trabalho como instrumentista, o contato com diferentes gerações da música popular e as parcerias que ajudariam a definir sua identidade artística.
Sua obra se confunde com alguns dos capítulos mais bonitos da música brasileira. Ao lado de Jorge Ben Jor, criou canções como “Que Maravilha” e “Carolina Carol Bela”. Com Chico Buarque, assinou “Lua Cheia” e “Samba de Orly”, esta última também composta com Vinicius de Moraes. Mas foi justamente com o Poetinha que Toquinho viveu o encontro mais decisivo de sua carreira.

A parceria começou em 1970 e seguiu até a morte de Vinicius, em 1980. Foram centenas de apresentações, viagens, discos e canções que se tornaram parte da memória afetiva do país. O poeta encontrou no violão de Toquinho uma companhia capaz de compreender seus versos; o músico encontrou em Vinicius um parceiro que ampliou sua forma de compor, cantar e olhar a vida.
Dessa união nasceram clássicos como “Tarde em Itapoã”, “Carta ao Tom 74”, “Como Dizia o Poeta”, “Se Ela Quisesse”, “O Filho que Eu Quero Ter” e “A Tonga da Mironga do Kabuletê”. Juntos, os dois aproximaram poesia e canção com uma naturalidade que ainda hoje impressiona.
Toquinho também construiu uma relação especial com o universo infantil. Projetos como A Arca de Noé, idealizado por Vinicius, e Casa de Brinquedos apresentaram sua música a diferentes gerações. “O Caderno”, uma de suas criações mais conhecidas, ultrapassou o repertório infantil e tornou-se uma canção sobre afeto, crescimento e passagem do tempo.
E falar de Toquinho é, inevitavelmente, falar de “Aquarela”. Com imagens simples e profundas, a música atravessou fronteiras, ganhou versões em outros idiomas e permanece capaz de encantar crianças e adultos. Talvez porque resuma algo central em sua obra: a capacidade de traduzir grandes sentimentos com palavras acessíveis, melodias luminosas e uma elegância que nunca precisa se exibir.
A homenagem do Vozes da Vez celebra justamente essa permanência. Mais do que recordar sucessos, o programa reconhece um artista que ajudou a construir a identidade musical do país e continua carregando consigo uma parte fundamental da nossa história.
Prepare o coração: esta edição é inteira dedicada à obra, à vida e ao legado de Toquinho. Porque ouvir seu violão é reencontrar Vinicius, Chico, Jorge Ben Jor e tantos outros gigantes — mas também é escutar uma voz absolutamente própria, que há mais de 60 anos transforma acordes em afeto.

