Ricardo Salles (Novo) quer chegar ao Senado com um discurso de ruptura em relação à forma como parte do Congresso funciona hoje. Candidato a uma das duas vagas de São Paulo, o atual deputado federal afirmou que a Câmara dos Deputados vive uma lógica intensa de negociação de cargos, emendas e apoios e disse enxergar no Senado uma estrutura mais favorável a votações individuais.
A declaração foi dada nesta quinta-feira (27) durante sabatina no Jornal Novabrasil SP, conduzida pelos jornalistas Maira Di Giaimo, Mauro Tagliaferri e Heródoto Barbeiro.
Salles justificou inclusive a decisão de disputar o Senado, em vez de tentar a reeleição para a Câmara.
“Hoje na Câmara Federal há um sistema de troca de favores muito intenso”, afirmou. Para ele, no Senado, “as negociações são feitas um a um” e os 81 parlamentares teriam mais autonomia em relação às direções partidárias.
Críticas ao Centrão e ao antigo partido
Boa parte da entrevista passou pela relação de Salles com o campo político da direita. Ele deixou o PL neste ano e se filiou ao Novo, movimento que atribuiu principalmente ao que chama de “valdemarismo”, em referência ao presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto.
Salles afirma continuar identificado com o eleitor conservador e liberal, mas faz críticas duras à estrutura do antigo partido e ao Centrão.
“O Centrão é sinônimo de corrupção”, declarou.
Questionado se sua candidatura poderia dividir os votos da direita, Salles rejeitou a tese e atacou adversários que, segundo ele, passaram a se apresentar como conservadores apenas por conveniência eleitoral.
Ele também disse que, embora critique o Centrão, reconhece que a articulação política continuará sendo necessária caso seja eleito. A diferença, segundo o candidato, estaria no limite dessa negociação.
“Você não pode transigir em questões que são fundamentais. Questões marginais, questões secundárias, não tem problema, faz parte do processo político.”
Salles quer acabar com emendas parlamentares
Outro ponto em que Salles foi direto foi o uso das emendas parlamentares.
O candidato defendeu o fim desse mecanismo e também criticou os fundos partidário e eleitoral.
“Eu sou totalmente contra emenda parlamentar. Acho que não deveria existir.”
Enquanto o modelo permanecer, no entanto, disse que continuará destinando os valores obrigatórios previstos em lei. Segundo Salles, suas indicações foram concentradas em saúde, educação e assistência social.
Ele citou como exemplo R$ 3 milhões destinados à Casa Hope, instituição que atende crianças com câncer, e disse considerar positiva a fiscalização feita pelos órgãos de controle.
“Quem faz as coisas certas quer que haja realmente fiscalização. Quem não quer fiscalização é quem faz coisa errada.”
Senado, STF e o tamanho da máquina pública
A estrutura do próprio Senado também foi questionada durante a sabatina.
Heródoto Barbeiro levantou o custo do Congresso e o tamanho da máquina pública. Salles respondeu defendendo redução de despesas e classificou o Senado e outros órgãos como estruturas inchadas.
“O cidadão é escravo da máquina pública”, disse.
Para o candidato, uma eventual mudança depende da composição escolhida pelo eleitor. Na avaliação dele, o Senado atual não teria força suficiente para exercer plenamente o papel de fiscalização sobre os demais Poderes.
Salles defendeu que o Legislativo fiscalize condutas e procedimentos do Judiciário, sem interferir no conteúdo das decisões judiciais.
São Paulo e o pacto federativo
Ao falar das prioridades para o estado, Salles colocou no topo da lista uma revisão da distribuição de recursos entre União e estados.
Segundo ele, São Paulo arrecada muito para o governo federal e recebe proporcionalmente menos do que deveria.
“São Paulo é a locomotiva do Brasil, o estado que mais produz, paga 32% da carga tributária arrecadada pela União e é tratado lá em Brasília como se fosse o último vagão do trem.”
Entre outras prioridades, mencionou segurança pública, endurecimento de leis penais, saneamento básico e infraestrutura.
Meio ambiente: mais adaptação e menos mitigação
Ex-ministro do Meio Ambiente do governo Jair Bolsonaro, Salles voltou a defender uma abordagem diferente para a política climática.
Na avaliação dele, o Brasil deveria concentrar mais esforços e recursos na adaptação a eventos extremos, como secas, enchentes e ocupações em áreas de risco, do que em políticas de mitigação.
“O nosso problema maior é adaptação”, resumiu.
O candidato citou “reservação” de água, obras contra enchentes e retirada de famílias de áreas de risco como exemplos de ações que deveriam receber prioridade.
Salles também voltou a criticar a condução de políticas ambientais no país e fez ataques à ex-ministra Marina Silva, sua adversária na disputa pelo Senado.
“Boiada” voltou à sabatina
A frase que marcou sua passagem pelo Ministério do Meio Ambiente também apareceu na entrevista.
Em 2020, durante reunião ministerial, Salles defendeu aproveitar a atenção da imprensa concentrada na pandemia para “passar a boiada” em mudanças regulatórias.
Questionado pelos jornalistas, ele disse que não repetiria a frase da mesma forma se soubesse que ela seria divulgada para todo o país, mas manteve a defesa do conteúdo que pretendia expressar.
“Eu jamais diria daquele jeito. Agora, o conteúdo que eu quis dizer […] não tem nada de errado.”
Segundo Salles, a intenção era defender simplificação de regras e medidas infralegais que, na visão dele, reduziriam burocracias dentro do governo.
A sabatina com Ricardo Salles (Novo) faz parte da série do Jornal Novabrasil SP com candidatos ao Senado por São Paulo.
A entrevista completa pode ser assistida no canal Jornalismo Novabrasil, no YouTube, onde também estão disponíveis as demais sabatinas da série.


