Dor no peito: por que esse sintoma precisa ser levado a sério?

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Dor no peito é uma das queixas mais comuns nos serviços de emergência. Nem toda dor no peito é do coração e, na maioria das vezes, a causa não será um infarto. Pode ser refluxo, dor muscular, ansiedade, entre outras condições. Mas, antes de chegar a esses diagnósticos, é fundamental avaliar as causas que podem colocar a vida do paciente em risco.

Um caso recente chamou a atenção no Rio de Janeiro. Uma jovem de 26 anos procurou duas vezes um pronto-socorro com dor no peito e outros sintomas, realizou exames e recebeu alta. Horas depois, apresentou uma parada cardiorrespiratória e morreu. As circunstâncias e a causa da morte ainda estão sendo apuradas.

O caso, no entanto, chama a atenção para um ponto importante: dor torácica precisa ser valorizada, inclusive em pessoas jovens.

Professora de História Giulia Silva de Araújo morreu após duas passagem por hospital municipal
Professora de História Giulia Silva de Araújo morreu após duas passagem por hospital municipal Reprodução/Redes sociais.

Dor no peito não é só infarto

Quando um paciente chega ao pronto-socorro com dor no peito, o primeiro passo é identificar rapidamente se existe alguma condição potencialmente grave.

Infarto do miocárdio é uma delas, mas não é a única. Síndrome aórtica aguda, embolia pulmonar, pneumotórax e tamponamento cardíaco também estão entre os diagnósticos que precisam ser lembrados. Pericardite e miocardite também podem se apresentar com dor torácica e, dependendo do quadro, exigir investigação e tratamento.

Por outro lado, existem causas muito mais frequentes e menos graves, como refluxo gastroesofágico, dor musculoesquelética e ansiedade. O problema é partir diretamente para um desses diagnósticos sem uma avaliação adequada.

A investigação começa pela história. Antes mesmo dos exames, é preciso ouvir o paciente

Como é essa dor? Quando começou? É um aperto, uma pressão, uma queimação ou uma pontada? Irradia para o braço, costas ou mandíbula? Começou durante um esforço ou em repouso? Está acompanhada de falta de ar, suor frio, náusea, palpitação, tontura ou desmaio?

Idade, antecedentes pessoais, história familiar e fatores de risco cardiovascular também fazem parte dessa avaliação.

Ser jovem pode reduzir a probabilidade de algumas doenças, mas não exclui uma condição cardiovascular grave.

Eletrocardiograma normal não significa investigação encerrada

A Diretriz Brasileira de Atendimento à Dor Torácica na Unidade de Emergência, de 2025, recomenda que, na suspeita de síndrome coronariana aguda, o eletrocardiograma seja realizado nos primeiros 10 minutos.

Mas um primeiro ECG normal, isoladamente, não exclui infarto.

Se a história continua suspeita, a investigação precisa continuar. Dependendo do caso, pode ser necessário repetir o eletrocardiograma, realizar dosagens seriadas de troponina de alta sensibilidade ou solicitar outros exames direcionados para a hipótese diagnóstica.

O mesmo raciocínio vale para outras causas graves de dor torácica. Um exame isolado não deve substituir a avaliação clínica.

E a troponina?

A troponina de alta sensibilidade é hoje uma ferramenta fundamental na investigação do infarto. Mas também não deve ser interpretada apenas como um resultado positivo ou negativo.

É preciso considerar o momento em que os sintomas começaram, o valor da troponina e sua variação ao longo do tempo, sempre em conjunto com a história clínica e o eletrocardiograma.

E esse conceito acaba de ganhar ainda mais destaque com uma importante atualização internacional.

Congresso Europeu de Cardiologia 2026 traz nova definição de infarto

Durante o Congresso Europeu de Cardiologia 2026, foi apresentada a 5ª Definição Universal de Infarto do Miocárdio, documento conjunto da Sociedade Europeia de Cardiologia, American College of Cardiology, American Heart Association e World Heart Federation.

A nova definição reforça um conceito importante: troponina elevada, sozinha, não significa infarto.

Para o diagnóstico de infarto, é necessário haver lesão miocárdica aguda associada a evidências de isquemia miocárdica. Isso significa que sintomas, eletrocardiograma, comportamento da troponina e, quando indicados, exames de imagem precisam ser avaliados em conjunto.

Outra mudança importante foi a classificação. A antiga divisão numérica dos tipos de infarto foi substituída por três grandes categorias: infarto primário, infarto secundário e infarto relacionado a procedimento.

No infarto primário existe uma alteração aguda na própria circulação coronária, como aterotrombose, dissecção espontânea de coronária, embolia coronariana ou vasoespasmo. No infarto secundário, outra condição aguda provoca um desequilíbrio entre a oferta e a demanda de oxigênio pelo coração. O terceiro grupo reúne os infartos relacionados a procedimentos cardíacos.

A atualização reforça algo muito importante para quem atende dor torácica: o diagnóstico de infarto não deve ser feito, nem descartado, com base em um único exame.

Como saber quem pode receber alta?

Essa é uma das decisões mais importantes no pronto-socorro. Não existe um único exame capaz de responder sozinho se aquele paciente pode ir para casa com segurança.

É preciso reunir história clínica, exame físico, eletrocardiograma, troponina e estratificação de risco.

Na suspeita de síndrome coronariana aguda, ferramentas como o HEART Score podem ajudar. O escore considera história, eletrocardiograma, idade, fatores de risco e troponina. Ele auxilia na estratificação, mas não substitui a avaliação clínica nem os protocolos de troponina.

E existe uma situação que merece atenção especial: o paciente que volta ao pronto-socorro porque a dor persistiu, voltou ou mudou de característica. É preciso reavaliar. Rever a história, o exame físico e as hipóteses diagnósticas e, quando necessário, repetir exames ou ampliar a investigação.

Uma primeira avaliação sem alterações não significa necessariamente que o caso esteja encerrado.

Um recado para quem está começando a dar plantão

Quem vai trabalhar em pronto-socorro, emergência ou UPA precisa saber conduzir uma dor torácica.

É uma queixa comum, mas por trás dela pode existir uma doença potencialmente fatal. Reconhecer rapidamente um infarto do miocárdio , uma síndrome aórtica aguda, uma embolia pulmonar, um pneumotórax ou um tamponamento cardíaco pode mudar o desfecho daquele paciente.

Não é preciso ser cardiologista para saber reconhecer os sinais de alerta, iniciar a investigação adequada e identificar quem precisa permanecer em observação, realizar outros exames, receber avaliação especializada ou ser internado.

Também é preciso ter cuidado para não atribuir uma dor no peito à ansiedade simplesmente porque o paciente é jovem ou porque os primeiros exames não mostraram alterações.

Toda dor no peito deve ser valorizada. Uma avaliação adequada pode salvar uma vida

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