Todo mundo fala de saúde mental. Então por que estamos adoecendo tanto?

Jhon Fuentes
Jhon Fuentes
Neuropsicólogo, psicólogo escolar, psicólogo clínico especializado em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), atuando nos tratamentos de Depressão, Ansiedade, Síndrome de Burnout, doenças psicossomáticas e situações com sequelas graves de violência doméstica.

O Brasil tem 480 mil psicólogos, o maior número do mundo, além de psiquiatras, coaches, terapeutas e conteúdos de autoajuda disponíveis a todo momento.

Mesmo assim, seguimos como o país mais ansioso do mundo. Como isso é possível?

Segundo a OMS, 9,3% dos brasileiros vivem com ansiedade — quase 20 milhões de pessoas. A depressão também cresceu 25% após a pandemia, colocando o Brasil entre os países com maiores índices.

Em 10 anos de atendimento em São Paulo, nunca vi tanta gente travada, sem dormir e confundindo sintomas de ansiedade com problemas cardíacos.

A questão não é falta de especialistas, mas o modo como estamos vivendo.

A seguir, três motivos que os dados revelam — e que ainda são pouco discutidos:

1. TROCAMOS TRATAMENTO POR CONTEÚDO.

Você conhece gatilhos emocionais, cortisol e infância ferida. Salvou dezenas de vídeos com técnicas para acalmar crises.

Mas quanto você dormiu? Quantas horas passou no celular?

Em 2024, pesquisa da USP apontou média de 9 horas diárias diante de telas no Brasil.

Consumimos informação sobre saúde mental como anestesia: alivia por minutos, mas não muda a rotina.

Saber não transforma. Praticar, sim.

2. SEU CÉREBRO FOI SEQUESTRADO.

Isso é neurociência, não opinião: fomos feitos para lidar com poucos vínculos, mas hoje nos comparamos com centenas de pessoas todos os dias.

Ao ver vidas perfeitas logo cedo, o cérebro entende: “estou atrasado” — e a ansiedade dispara.

Para fugir, busca dopamina rápida: bet, TikTok, delivery e compras online.

A psiquiatria alerta: apostas podem viciar intensamente e comprometer a dopamina.

Não é apenas falta de serotonina; é excesso de estímulo vazio.

3. A CONTA NÃO FECHA.

Na vida real, 77% das famílias brasileiras estão endividadas, segundo a CNC, e o salário mínimo não cobre a cesta básica em São Paulo. Enquanto isso, jovens mal conseguem pagar as contas e se comparam a quem promete enriquecer cedo.

Não se cura ansiedade com “pense positivo” quando falta dinheiro, segurança e perspectiva. Ansiedade também nasce do boleto, do medo do futuro e da vergonha de não dar conta.

Quando tenta falar, a pessoa ouve: “vai orar”, “pare de frescura”, “tem gente em situação pior”.

Fala-se muito sobre saúde mental, mas ainda se acolhe pouco a tristeza real. E o cuidado ainda é distante: filas longas no CAPS e sessões particulares inacessíveis para quem mais precisa.

ENTÃO COMO A GENTE SAI DISSO?

A resposta não está em assistir a mais vídeos, mas em retomar o básico: aquilo que funciona e já tem respaldo da ciência.

Preste atenção: isso não é apenas uma sugestão, é uma orientação essencial.

1. Durma pelo menos 7 horas. Sem sono adequado, nenhum recurso consegue equilibrar bem suas emoções. Isso é biologia.

2. Fique uma hora longe das telas antes de dormir. Seu cérebro também precisa de pausa para desacelerar.

3. Procure presença real. Uma conversa sincera, de 20 minutos, olhando nos olhos de alguém querido, pode ter mais efeito do que horas de interação distante por mensagem.

4. Tenha coragem de pedir ajuda. O CVV atende pelo 188 e também existe para quem está sobrecarregado e não consegue mais lidar sozinho com os próprios pensamentos.

São Paulo, talvez não falte informação. Falta coragem: para desligar o celular, admitir “eu não estou bem” e buscar cuidado antes que a situação chegue ao limite.

Se esta mensagem fez sentido para você, não apenas curta: envie para alguém que não dorme bem há dias. Às vezes, esse conteúdo pode ser o impulso necessário para transformar uma noite de angústia em um pedido de ajuda.

Até a próxima semana!

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