Ninguém se separa por falta de amor. Se separa por falta de habilidades pra amar?

Jhon Fuentes
Jhon Fuentes
Neuropsicólogo, psicólogo escolar, psicólogo clínico especializado em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), atuando nos tratamentos de Depressão, Ansiedade, Síndrome de Burnout, doenças psicossomáticas e situações com sequelas graves de violência doméstica.

Se eu te falar que a cada 100 casamentos no Brasil, 47 terminam em divórcio, você acredita?

São dados do IBGE, do ano passado. O casamento que durava 16 anos, hoje não dura 13.

E eu te pergunto: é que o amor acabou? Ou é que a gente desaprendeu a amar quando fica difícil?

Eu atendo casais há 10 anos aqui em São Paulo. E em 2026 eu nunca vi tanta gente boa se separando por motivo bobo. Não é traição. É cansaço.

E a neurociência explica por que a gente não tá lutando mais.

1.SEU CÉREBRO VICIOU EM COISA NOVA E NÃO AGUENTA COISA VELHA.

Quando você se apaixona, seu cérebro te droga de dopamina. É mensagem toda hora e frio na barriga.

Depois de uns 2 anos, essa dopamina cai, e é normal. Outro hormônio entra em cena, a oxitocina, que é o amor calmo, de parceria, de construir casa, de pagar boleto junto.

Só que seu cérebro em 2026 não quer calma. Ele quer dopamina rápida. TikTok, Bet, pornografia, 500 pessoas bonitas no Instagram te chamando.

Então quando o casamento entra na fase calma, seu cérebro fala: “tá chato, vamos pro próximo”. Você não troca porque achou alguém melhor. Você troca porque não aguenta mais o tédio de construir algo duradouro.

2.A GENTE NÃO SABE BRIGAR. A GENTE SE ATACA.

O maior pesquisador de casamento do mundo, John Gottman, acompanhou 3 mil casais por 40 anos. Ele descobriu que não é a briga que separa. É o JEITO que a gente briga.

Ele fala de 4 venenos:

A crítica: “você nunca faz nada direito”.

O desprezo: revirar o olho, deboche, chamar de “inútil”.

Ficar na defensiva: “a culpa não é minha, é sua”.

E o pior de todos, o muro de pedra: quando um some, fica em silêncio por dias.

Em São Paulo, eu vejo isso todo dia. O casal não grita mais. Ele silencia. Ela dorme na sala. Ficam 3 meses como dois estranhos dentro de casa. E relacionamento não morre gritando. Morre em silêncio.

3. A MULHER ACORDOU. E AINDA BEM.

A maioria dos divórcios hoje é pedido pela mulher. Simplesmente porque a conjuntura mudou e ela não aceita mais sofrer calada.

Antigamente a mulher aguentava 20 anos com um homem que a humilhava, que não contribuía com os serviços domésticos e quando fazia algo, achava que estava fazendo um favor.

Hoje a mulher tem o próprio dinheiro e tem informação. Ela fala: “prefiro ficar sozinha do que me sentir sozinha dentro de um casamento”. Afinal, ninguém tem que ficar onde é humilhado pra manter status de casada.

4. CASAMENTO VIROU DIVISÃO DE BOLETO, NÃO DIVISÃO DE SONHO.

Antigamente casal tinha propósito: “vamos construir nossa casa, vamos envelhecer juntos”.

Hoje o casal tem boleto. Chega 19h da noite, cansado, cada um no seu celular. Não conversa, não ri, não faz plano. Vira dois colegas de quarto.

E a neurociência é clara: sem propósito compartilhado, sem ritual, sem conversa olho no olho, a oxitocina morre. E sem oxitocina, não tem vínculo.

ENTÃO POR QUE NÃO LUTAM?

Porque dá trabalho. E a gente aprendeu que se tá difícil, troca.

Só que trocar de pessoas levando o mesmo cérebro imaturo, vai dar no mesmo problema daqui 2 anos.

O que segura casamento em 2026 não é amor de filme. É habilidade. É treino. E é isso que eu ensino:

1.20 minutos por dia sem celular. Senta e conversa. Sem resolver problema. Só se escuta. 20 minutos salvam casamento.

2.Para de deboche. Você pode criticar, mas nunca desprezar. Deboche mata mais casamento que traição.

3.Aprende a brigar certo. Troca o “você nunca” por “eu me sinto sozinho quando você…”. Muda tudo.

4.Faz terapia antes de odiar. 90% dos casais me procuram 6 anos depois que o problema começou. Já virou ódio. Terapia não é pra quem vai separar. É pra quem não quer separar.

O casamento não acaba porque o amor morreu. Acaba porque a gente deixou o celular, o cansaço e o orgulho matarem o amor aos poucos.

Amar em 2026 não é encontrar a pessoa perfeita, mas ter coragem de permanecer, dialogar e reconstruir ao lado de quem você escolheu, mesmo quando ir embora parece ser o caminho mais fácil.

Se essa coluna mexeu com você, manda pra seu marido, pra sua esposa.

Até a próxima semana!

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