Sobras de tecidos que saem da linha de produção de uma das maiores fábricas de roupas do país, em Natal, percorrem cerca de 180 quilômetros até João Pessoa para voltar a ser matéria-prima. Na capital paraibana, aparas de algodão da fábrica Guararapes, responsável pela produção da Riachuelo, são desfibradas e transformadas em material utilizado na fabricação de novos fios.
Desde março de 2025, 181 toneladas de resíduos têxteis já passaram pelo processo de reciclagem dentro do projeto Guara Circular, desenvolvido pela Riachuelo em parceria com a Cotton Move e a Evotex. Parte desse material chegou agora a uma coleção com mais de 41 mil peças de jeans distribuídas pelo país.
O processo coloca João Pessoa em uma etapa industrial que costuma ocorrer longe dos olhos do consumidor: recuperar fibras de tecidos que já passaram pelo corte e fazer com que elas tenham qualidade suficiente para retornar à fabricação de roupas.
A operação integra uma estrutura apresentada pelas empresas envolvidas como o primeiro hub de reciclagem têxtil em escala industrial do Nordeste.
Como o resíduo chega à Paraíba
O percurso começa na fábrica Guararapes, em Natal, no Rio Grande do Norte. As sobras geradas durante o corte de tecidos 100% algodão são separadas de acordo com o tipo de material, como malha, sarja e jeans.
Depois da triagem, as aparas seguem para João Pessoa.
Na capital paraibana, a Evotex, empresa criada a partir da Ficamp, realiza a desfibragem. Nesse processo, pedaços de tecido deixam de ter a estrutura de uma roupa ou de uma manta têxtil e retornam a uma condição semelhante à fibra de algodão utilizada na fabricação de fios.
É essa etapa que permite reinserir parte do resíduo na cadeia produtiva.
O fio desenvolvido para o projeto utiliza 50% de fibras recicladas e 50% de algodão virgem. Depois, ele segue para tecelagens e retorna ao processo de confecção.
Tecnologia em João Pessoa permitiu produzir fios mais finos
A presença da indústria paraibana no projeto está ligada a um desafio técnico da reciclagem de tecidos.
A Ficamp já trabalhava há quase três décadas com reaproveitamento de resíduos têxteis, mas produzia principalmente fios mais grossos, usados, por exemplo, na fabricação de redes e em trabalhos artesanais.
Segundo Ana Cecília Albuquerque, sócia-fundadora da Evotex, o desafio passou a ser adaptar esse conhecimento para produzir fios mais finos, limpos e regulares, capazes de atender à indústria de vestuário. A Evotex surgiu justamente para atuar nesse segmento.
O desenvolvimento resultou em diferentes espessuras de fios reciclados que podem ser empregadas não apenas em jeans, mas também em malhas e tecidos leves.
O projeto levou quase dois anos entre pesquisas, testes e desenvolvimento até alcançar a produção utilizada atualmente.
41 mil peças chegam ao mercado
Parte do algodão recuperado em João Pessoa retornou à cadeia produtiva para a fabricação da nova coleção Pool Loop.
São mais de 41 mil peças, entre calças, shorts, bermudas, macacões e jaquetas. Os produtos são feitos em 100% algodão, sendo aproximadamente 25% provenientes das fibras recicladas das próprias sobras da fábrica Guararapes.
A diferença entre os percentuais ocorre ao longo das etapas industriais: o fio produzido inicialmente tem uma combinação de 50% de algodão reciclado e 50% virgem, enquanto a composição final do tecido utilizado nas peças resulta em cerca de 25% de fibra reciclada.
Manter as peças apenas com algodão também tem uma finalidade técnica. A utilização de um único tipo de fibra facilita uma eventual reciclagem futura, já que materiais compostos por diferentes fibras são mais difíceis de separar e reaproveitar em escala industrial.
Projeto quer ampliar volume reaproveitado
O volume atual representa apenas parte das sobras geradas pela produção.
Em 2025, aproximadamente 9,6 mil toneladas de tecidos passaram pelo setor de corte da fábrica Guararapes. Desse total, 47% correspondiam a tecidos feitos integralmente de algodão.
A meta anunciada pela Riachuelo é ampliar o sistema para reaproveitar mais de 1,2 milhão de quilos de aparas de algodão, reinserindo esse material no início da cadeia produtiva.
Para João Pessoa, a participação no processo insere uma indústria instalada na cidade em uma cadeia que conecta produção, reciclagem e fabricação de roupas em diferentes estados.
As empresas envolvidas também afirmam que a estrutura criada para o Guara Circular tem potencial para atender outras companhias do setor têxtil. A eventual expansão para novos clientes, no entanto, dependerá da capacidade industrial e dos contratos que vierem a ser firmados.


