A corda não era detalhe

A morte de Maria Eduarda deixa uma pergunta que não dá para engolir: como alguém “esquece” justamente aquilo que separava uma brincadeira radical de uma tragédia?

Thaís Cremasco
Thaís Cremasco
Thaís Cremasco é uma advogada e ativista reconhecida por sua atuação estratégica na defesa dos Direitos Humanos. Sua expertise é fundamentada pela especialização em Gênero e Saúde da Mulher pela Universidade de Stanford (EUA), pela pós-graduação em Direito do Trabalho e Previdenciário e por certificações em Violência Baseada em Gênero de agências das Nações Unidas (UNICEF). É também professora de direito trabalhista na pós-graduação em Direito da Mulher.Sua liderança institucional inclui posições de destaque, como Conselheira Estadual da OAB/SP por dois triênios (2021–2024 e 2025–2028), Coordenadora do Núcleo de Violência contra a Mulher da OAB/SP e Presidente da Associação dos Advogados Trabalhistas de Campinas. Seu trabalho foi reconhecido com o Prêmio "Mulheres de Destaque" da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (ALESP) e o Prêmio de Mérito Jurídico "Elbino Silva Filho" da Câmara Municipal de Campinas.Com uma trajetória internacional que inclui a representação do Brasil na Organização Internacional do Trabalho (OIT), em Genebra, e a participação na Comissão de Combate ao Assédio do TRT-15 (representando a OAB), Thaís é uma voz influente no debate público. Atua como colunista na CBN (programa "Mulher em Pauta"), Jovem Pan ("Linha de Frente") e Revista Fórum.Cofundadora do Coletivo Mulheres pela Justiça, seu ativismo em causas raciais e de gênero é marcado por resultados transformadores, sendo responsável pelo caso que levou à primeira expulsão de alunos por racismo na história do Brasil. Como palestrante, leva sua abordagem que une teoria, empatia e transformação social a instituições de renome como a Universidade de Coimbra, Justiça do Trabalho e SENAC.Atuando nos principais casos de violência contra a mulher, direitos trabalhistas e racismo do país, Thaís Cremasco consolidou sua reputação por uma postura firme, humanista e comprometida com a justiça social.
Reprodução

Maria Eduarda tinha 21 anos. Foi praticar rope jump, um esporte radical em que a pessoa salta de uma ponte presa por uma corda. Era para ser uma experiência de adrenalina. Virou uma morte absurda.

Segundo o que foi divulgado, ela teria sido lançada da ponte sem que a corda de segurança estivesse presa ao corpo. Três instrutores foram presos e o caso é investigado como homicídio com dolo eventual, que é quando a pessoa pode não ter tido a intenção direta de matar, mas assumiu o risco de que aquilo acontecesse.

E é aqui que a pergunta fica impossível de evitar: como assim esqueceram a corda?

Não estamos falando de esquecer uma chave, um documento, uma garrafa de água. Estamos falando da única coisa que impedia uma jovem de cair no vazio. Em uma atividade de risco, segurança não é detalhe. Segurança é tudo.

Como três pessoas conduzem uma mulher até a beira de uma ponte, preparam o salto, orientam o movimento, empurram ou autorizam a saída dela e não conferem o principal? Como ninguém percebeu? Como ninguém gritou? Como ninguém interrompeu?

Essa história assusta não só pela morte em si, mas pela naturalidade com que muita gente parece lidar com o risco quando o corpo em perigo é o corpo de outra pessoa. Tem gente que assiste, filma, posta, comenta, compartilha. A tragédia vira vídeo. A dor da família vira assunto de rede social. A morte vira conteúdo.

E, no caso de Maria Eduarda, a violência não parou quando ela morreu.

Depois da tragédia, começaram a circular comentários nojentos sobre o corpo dela. Comentários de homens fazendo piada, falando de IML, insinuando coisas obscenas. Não vou repetir aqui, porque repetir também pode machucar ainda mais a memória dela e a família. Mas é preciso dizer o que aconteceu: uma jovem morreu de forma brutal e, mesmo assim, teve seu corpo tratado como objeto de deboche.

Isso mostra uma coisa muito dura: muitas mulheres não têm paz nem depois da morte.

Enquanto estão vivas, são julgadas, controladas, vigiadas, culpadas pelo que vestem, pelo que fazem, por onde vão, por quem encontram. Quando morrem, ainda aparecem homens achando que podem transformar o corpo delas em piada, desejo ou comentário cruel.

Isso não é humor. É violência.

E a lei brasileira sabe disso. Existe um crime chamado vilipêndio de cadáver. O nome é difícil, mas a ideia é simples: ninguém pode desrespeitar, profanar, humilhar ou tratar com desprezo o corpo de uma pessoa morta. A morte não transforma ninguém em coisa. O corpo de quem morreu carrega memória, história e dignidade.

Esse crime existe justamente porque, infelizmente, foi preciso colocar na lei algo que deveria ser óbvio: até os mortos merecem respeito.

Quando alguém faz comentários obscenos sobre o corpo de uma mulher que morreu, especialmente em um caso tão doloroso, não é apenas “brincadeira de mau gosto”. É uma forma de continuar violentando aquela mulher e de atingir também sua família. A internet não pode ser uma terra sem lei. O teclado não pode servir de esconderijo para covardia.

O caso de Maria Eduarda precisa ser investigado com seriedade. Quem organizou a atividade? Quem deveria ter conferido os equipamentos? Quem autorizou o salto? Quem viu que algo estava errado e não fez nada? Quem lucrou com isso? Quem vai responder?

Mas, para além da investigação criminal, esse caso também precisa nos fazer olhar para a nossa cultura.

Por que tanta gente filma em vez de ajudar? Por que tragédias viram espetáculo? Por que o sofrimento de uma família vira entretenimento? Por que ainda existem homens que olham para uma mulher, viva ou morta, e acham que o corpo dela está à disposição?

A corda não era detalhe. A segurança não era detalhe. A vida de Maria Eduarda não era detalhe.

E o respeito por ela também não pode ser.

Que a investigação responda pelo que aconteceu naquela ponte. E que a sociedade responda por aquilo que aconteceu depois: a transformação de uma jovem morta em alvo de comentários cruéis.

Porque uma sociedade que não respeita nem o corpo de uma mulher depois da morte precisa perguntar, com urgência, onde perdeu a própria humanidade.

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