Bill Gates, conhecido pelo otimismo em relação à tecnologia, fez um de seus alertas mais duros sobre a inteligência artificial. Em um ensaio publicado na quarta-feira (26) em seu site, Gates Notes, o cofundador da Microsoft afirmou que a IA evolui em ritmo muito superior ao da preparação de governos e da sociedade para lidar com seus efeitos.
O tom contrasta com o adotado por ele em 2023, quando descreveu os riscos da IA como reais, porém administráveis. Gates continua a defender os benefícios da inovação, mas agora diz que a velocidade dos avanços exige uma resposta pública urgente.
“A IA será o maior instrumento de igualdade já inventado ou a pior fonte de injustiça”,
escreveu Gates.
Para ele, a tecnologia pode ampliar o acesso à saúde, à educação e a serviços públicos, mas esses benefícios não chegarão a todos de forma automática.
O empresário avalia que a transição poderá estar entre os períodos mais turbulentos da história. Diferentemente de revoluções tecnológicas anteriores, que se estenderam por gerações, a IA pode assumir tarefas intelectuais e atingir vários setores em poucos anos. Gates cita áreas como direito, atendimento ao cliente, medicina, desenvolvimento de software e indústria. Sem políticas adequadas, prevê, novos empregos surgirão, mas em número insuficiente para compensar as vagas eliminadas.
O alcance dessas previsões ainda é debatido. Uma revisão da Organização Internacional do Trabalho (OIT), publicada em junho de 2026, concluiu que o deslocamento de empregos em larga escala ainda é limitado. Segundo a entidade, os sinais mais claros até agora são riscos para trabalhadores jovens, aumento das desigualdades e mudanças na organização e na qualidade do trabalho.
O texto reúne três grandes preocupações. A primeira é a substituição permanente de postos de trabalho, sobretudo funções de entrada e de nível intermediário. A segunda envolve o uso da IA para fraudes, deepfakes, ataques cibernéticos e até ameaças biológicas. A terceira é o efeito sobre crianças e adolescentes, que podem se tornar dependentes de companheiros virtuais ou usar ferramentas que reduzam o exercício do pensamento crítico.
Gates não propõe interromper a tecnologia. Ele diz que apoiaria uma desaceleração global caso existisse um plano viável, mas considera improvável um acordo desse tipo diante da competição econômica e geopolítica. Em vez disso, defende a criação de estruturas nacionais e internacionais capazes de coordenar regras para segurança, emprego, educação, saúde e tributação.
Entre as ideias apresentadas está o conceito “Reservado a Humanos”. A proposta é preservar determinadas atividades para pessoas, mesmo quando máquinas forem tecnicamente capazes de realizá-las. Gates usa como exemplo o cuidado de idosos e a comunicação de diagnósticos graves, situações em que empatia e vínculo humano seriam indispensáveis. Educação e saúde mental poderiam adotar um modelo misto, com profissionais no comando e a IA como apoio.
Outra sugestão é tributar robôs e o uso de IA. A arrecadação ajudaria a financiar requalificação profissional e redes de proteção social, além de reduzir o incentivo econômico para trocar trabalhadores por máquinas de maneira imediata.
Apesar do tom de urgência, Gates mantém o otimismo sobre aplicações em pesquisa médica, agricultura, energia limpa e serviços públicos. A mudança em seu discurso está na cobrança por ação: para ele, a discussão não pode ficar restrita às empresas de tecnologia. Trabalhadores, educadores, famílias, governos e comunidades precisam participar das decisões antes que os efeitos mais profundos se tornem irreversíveis.

