O primeiro debate entre os candidatos ao governo de São Paulo teve qualidades. Foi civilizado, discutiu temas importantes e, em alguns momentos, alcançou um bom nível. Mas vamos combinar: foi morno.
Talvez tenha faltado justamente aquilo que costuma tornar os debates de primeiro turno mais interessantes: candidatos.
São aquelas figuras com poucas chances eleitorais, mas enorme disposição para provocar os favoritos, fazer a pergunta inconveniente, quebrar o roteiro e, às vezes, entrar para o folclore das eleições. Com a disputa paulista praticamente concentrada entre Fernando Haddad e Tarcísio de Freitas, tivemos algo curioso: um segundo turno acontecendo ainda no primeiro turno.
Houve confronto. Segurança pública ganhou destaque, assim como educação, gestão e outros temas importantes para São Paulo. Mas faltou temperatura. Sem outros personagens tentando furar a polarização, os dois protagonistas puderam fazer um debate mais controlado e previsível.
E foi justamente diante dessa mornidão que minha cabeça de cientista político, sempre ansiosa com a próxima eleição, começou a viajar. Parei de pensar em 2026 e fui parar em 2030.
Olhei para aquele palco e pensei: será que não estamos diante de um possível debate presidencial daqui a quatro anos?
Não é previsão. Quatro anos são uma eternidade na política brasileira. Mas a imagem permite a provocação.
Haddad já disputou a Presidência, foi prefeito de São Paulo, ministro e permanece como um dos principais nomes nacionais da esquerda. Tarcísio, ex-ministro e governador, consolidou-se como uma das principais lideranças nacionais da direita.
Mais cedo ou mais tarde, os dois campos terão de discutir sua renovação. E os dois estarão, inevitavelmente, nessa conversa.
Talvez nenhum deles seja candidato em 2030. Talvez apenas um. Talvez os dois.
Mas confesso que, diante de um debate tão morno, comecei a prestar menos atenção em quem venceria aquela noite e mais na fotografia diante de mim: Tarcísio de um lado, Haddad do outro.
O debate era para o governo de São Paulo em 2026.
Mas não foi tão difícil imaginar o mediador dizendo:
“Boa noite. Começa agora o primeiro debate entre os candidatos à Presidência da República nas eleições de 2030.”
Elias Tavares é cientista político e especialista em comunicação eleitoral e marketing político.

