A primeira inteligência artificial a ter forte apelo popular foi o ChatGPT, em que perguntávamos coisas em vez de usar o Google. Na última semana, no dia 19 de maio de 2026, foi anunciado que até o Google vai mudar. Então, quando você abre o ChatGPT e faz uma pergunta, recebe uma resposta e pronto, acabou. É como ligar para o suporte técnico: você tem um problema, alguém resolve, e desliga. Agora, imagine que, em vez disso, você contrata um assistente que fica na sua empresa, trabalhando 24 horas por dia, tomando decisões sozinho, movimentando dinheiro, enviando e-mails e negociando contratos. Você dorme, ele continua trabalhando. Você sai de férias, ele continua trabalhando. É isso que chamam de IA agentica. Guarde esse nome.
O Google apresentou o Gemini Spark, que basicamente é isto: um agente que roda na nuvem sem parar. Você não precisa deixar o computador ligado. Você não precisa estar acordado. Ele está lá, executando, decidindo. No mesmo mês, o Papa Leão XIV lançou um documento intitulado Magnifica Humanitas, um texto extenso sobre como estamos perdendo o controle sobre nossas próprias decisões. Tinha até o Christopher Olah, cofundador da Anthropic, lá no Vaticano na hora do lançamento. Curioso, né? A Igreja preocupada com agentes de inteligência artificial.
Até agora, a IA era uma ferramenta. Você usava quando queria. Agora ela passa a ser um processo contínuo. Tem gente chamando isso de “sistema que nunca dorme”. E quando um sistema nunca dorme, ele toma centenas, milhares de micro decisões que você nunca vai ver. Ele negocia preços, aceita termos de serviço, escolhe fornecedores, agenda reuniões, responde e-mails. Cada decisão é pequena, mas o conjunto? O conjunto molda a direção inteira de um negócio, de uma carreira, de uma vida.
E a pergunta é como você supervisiona isso? As recomendações são o que eles chamam de “Human in the loop”, seria a IA com supervisão humana. A ideia de “manter o humano nas tomadas de decisão” sempre foi o mantra da ética em IA. Mas como você fica no loop de um sistema que opera continuamente por dias? Você vai pausar o agente a cada dez minutos para revisar as decisões? Aí ele não serve para nada. Você o deixa rodar livre? Aí você perdeu o controle. É um paradoxo matemático. Sistemas agenticos foram projetados exatamente para operar sem supervisão contínua. É para isso que eles existem. Então dizer “vamos manter o humano no comando” é como dizer “vamos usar o carro, mas sem as rodas girarem”.
E tem mais: a web inteira está sendo reformatada para agentes, não para humanos. O Google apresentou o WebMCP, que é um protocolo para os sites se comunicarem diretamente com os agentes. Eles também falaram do Universal Cart, que é um tipo de carrinho de compras unificado que permite aos agentes comprar coisas em qualquer site, sem que você precise clicar em nada. Imagine: você pede ao seu agente para “encontrar o melhor seguro de carro”, e ele não só pesquisa, mas também contrata, paga e assina o contrato. Tudo isso enquanto você está almoçando.
Quem isso afeta? Antes, a automação ameaçava operários de fábrica, com braços mecânicos substituindo braços humanos. Agora, estamos falando de substituir o arbítrio.
Advogados que analisam contratos, gerentes que aprovam orçamentos, analistas que recomendam investimentos. Não é a mão que está sendo substituída, é a cabeça. E, diferente da Revolução Industrial, em que demorou décadas para a sociedade se adaptar, aqui a velocidade é outra. Um agente pode escalar infinitamente. Você não precisa treinar, não precisa contratar, não precisa oferecer benefícios. Você só aumenta a capacidade de processamento.
O risco não é de robôs conscientes ou da Skynet. O risco é bem mais simples e mais perigoso: dependência sistêmica. Quando toda a infraestrutura digital opera através de agentes, e esses agentes rodam em meia dúzia de plataformas controladas por três empresas, você tem concentração de poder em um nível que a gente nunca viu. E, ao contrário de monopólios antigos, aqui não estamos falando de controlar petróleo ou aço. Estamos falando de controlar o processo decisório. Quem decide o que é prioridade, o que é urgente, o que é ético, o que é rentável.
Tem gente otimista dizendo que isso vai liberar os humanos para trabalho criativo, estratégico. Pode ser, mas também pode criar uma classe de pessoas que simplesmente não entende mais como as coisas funcionam. Quando você terceiriza a decisão por tempo suficiente, você perde a capacidade de decidir. É como um GPS: todo mundo usa, ninguém mais sabe ler mapa. Agora, imagine isso, mas para tudo. Para sua carreira, suas finanças, suas relações profissionais.
Quando um agente consegue decompor um objetivo em dezenas de microdecisões, adaptar estratégias ao longo do caminho e usar ferramentas externas sem pedir permissão a cada passo, o que exatamente significa “manter o humano no loop”?
O Google I/O celebrou a redução da fricção entre a intenção e a execução. O Vaticano, por sua vez, parece apontar para o custo invisível dessa redução: quanto mais fluida a execução, menor a janela de tempo em que ainda é possível refletir, hesitar ou intervir. Talvez o grande desafio da próxima era tecnológica não seja acelerar as decisões, mas preservar espaços de consciência antes que tudo se torne automático demais.


