É comum que nós, eleitores, nos deixemos distrair pelas camadas mais populares da política. Os debates televisivos, as postagens e discussões nas redes sociais, as matérias jornalísticas sobre os candidatos, os projetos de governo e as sabatinas em podcasts compõem o reality show que praticamente não muda um voto, mas movimenta a indústria do entretenimento político. Em geral, quando olhamos para esses eventos – os quais, vale lembrar, nem sempre atingem os eleitores do Brasil profundo –, buscamos uma forma de reafirmar nossa posição não como nação, mas como vencedores perante nossos amigos, familiares, vizinhos e colegas. Queremos poder dizer: “o meu time ganhou do seu!”.
Há, contudo, um aspecto da política que escapa às notícias corriqueiras e que se torna sutil nas redes, mas que poderia ajudar o eleitor a compreender quais as reais chances de seus escolhidos, o que de fato eles poderão realizar e o que representam para o país em um cenário mais amplo. Para isso, é necessário observar a força institucional que de fato os candidatos possuem. Vamos aos exemplos, sem seguir necessariamente a lista dos mais bem colocados nas pesquisas.
Romeu Zema, Ronaldo Caiado, Augusto Cury e Pablo Marçal não contam com instituições mais tradicionais que os divulguem ou que criem enraizamento de campanha. Dependem da simpatia do eleitor e da dissonância com outros candidatos do mesmo espectro político. Desses, o eleitor em geral pode esperar um comportamento semelhante, ainda que defendam objetivos diferentes. Irão buscar indicar apoio a grupos generalistas como o do “agro”, do “empreendedor”, do “religioso”, do “gestor” etc., para suprir a falta de uma estrutura estável. De modo geral, discursarão sobre a polarização, sobre o sentimento do brasileiro frente aos políticos tradicionais, sobre como são uma alternativa melhor do que os candidatos com quem se parecem e sobre o reforço à imagem do outsider da política.
Os outros três candidatos, Renan Santos, Flávio Bolsonaro e Lula da Silva, já possuem um trabalho de consolidação institucional mais efetivo. Renan Santos se alimenta das organizações herdadas do Movimento Brasil Livre (MBL), que são pequenas, localizadas e nichadas, mas que possuem presença física e nas redes, encontrando eco entre os mais jovens que acreditam que a política brasileira pode ser renovada. Com alguns poucos deputados e vereadores eleitos, uma revista em circulação e presença contínua ao longo dos anos em eventos regionais voltados à formação de líderes políticos, o candidato possui uma estrutura que tende a crescer ao longo dos anos e que fornece os andaimes para uma futura eleição com certo fôlego.
Flávio Bolsonaro conta com a estrutura mais tradicional e previsível da política: acordos partidários, empréstimos de capital político a personagens antigos, mas ainda relevantes nos bastidores, além do acesso a grupos de pressão no Congresso e no Senado. Sua maior estrutura frente ao eleitorado, porém, é o apoio moral que recebe de governantes estrangeiros, demonstrando que há sinergia com tendências internacionais e que não está sozinho na oposição aos ideais lulopetistas. A força moral internacional aqui ganha destaque, pois se choca com a força que os oponentes possuem a partir das estruturas internas.
Lula, por sua vez, conta com o mesmo apoio burocrático de quase 40 anos, que, mesmo diante dos sinais de desgaste, ainda é relevante na definição do cenário político nacional: uma organização partidária presente em veículos de imprensa, sindicatos, em parte considerável da Igreja Católica e na maioria dos setores públicos (tribunais, universidades, escolas, hospitais etc.). Diferente dos outros, a presença real do candidato é muitas vezes descaracterizada e despercebida, mas mantém sua influência perante o eleitorado. Além dessas organizações, ainda se ampara nas alianças com ex-presidentes da América Latina e do Caribe e na presença nos BRICS — estruturas internacionais que, apesar de não o estarem favorecendo desde 2022, ainda lhe servem como balizas.
Dessa maneira, observar a política nacional pelo prisma das instituições e da presença real dos candidatos no cotidiano dos eleitores ajuda a enxergar as novelas politizadas com mais ceticismo e a ganhar objetividade e pragmatismo nas opiniões. Os candidatos, em especial aqueles que possuem enraizamento institucional, carregam consigo não somente as propostas ou narrativas que veiculam, mas, sobretudo, a manutenção e a ampliação das estruturas que hoje os fortalecem.

