Nos últimos anos, temos acompanhado uma aceleração tecnológica nunca vista. O crescente desenvolvimento computacional permitiu que os serviços oferecidos pela inteligência artificial levassem apenas alguns dias para automatizar a vida de milhões de pessoas. Para observar essa velocidade é possível mencionar o projeto sediado na Universidade de Oxford, “Our World in Data”.
Nele, estudiosos procuram mapear índices e estatísticas de grandes problemas globais, como pobreza, doenças, fome e inovação tecnológica. O projeto demonstra que, enquanto a IA alcançou 1 milhão de usuários em poucos dias, a internet levou 7 anos para atingir 50 milhões; em comparação, o telefone e o automóvel demandaram 50 e 62 anos, respectivamente, evidenciando que o intervalo de adoção expande-se progressivamente nas tecnologias anteriores.
Diante da velocidade do desenvolvimento tecnológico, fica-nos a pergunta sobre como essas tecnologias impactam nossa sociedade e se geram mais efeitos positivos do que negativos. Ao prestarmos atenção especialmente em nossas rotinas atuais ligadas à inteligência artificial, não será difícil perceber, por exemplo, que muitas das tarefas que demandamos dos sites de busca ou da própria IA seriam empreendias melhor e mais rapidamente se nos dedicássemos a fazê-las manualmente. Escrever um prompt para que uma IA crie um e-mail, para que faça o resumo de um livro, ou para que produza um determinado texto – considerando que queremos ter resultados satisfatórios e de qualidade –, hoje provavelmente leva mais tempo e trabalho do que executar diretamente a tarefa.
Ainda assim, mesmo diante dessa percepção, nutrimos a impressão de que, pelo fato de estarmos utilizando uma tecnologia, essas atividades serão melhor executadas. Essa impressão não é atual nem diz respeito somente à IA. Desde o século passado, diversos estudiosos se questionam sobre os efeitos do progresso científico e tecnológico. Entre eles, destaca-se Neil Postman, escritor americano e estudioso sobre mídias, conhecido por ser uma voz crítica à forma como a sociedade se automatiza. Em seu livro de 1992, o autor vai apresentar a ideia de que a sociedade contemporânea desenvolveu uma dependência da tecnologia e das máquinas que, em grande parte das vezes, é desnecessária. A essa dependência, Postman chamou de Tecnopólio, quando a cultura é dominada pela crença na tecnologia.
A característica central desse fenômeno é a convicção de que a ciência sempre nos levará a um futuro melhor. O cientismo, nos diz Postman, é definido, então, como uma ideologia que prega que a única forma de progredir e obter conhecimento é através da ciência. Especialmente através das ciências naturais, que se ocupariam de descrever os eventos físicos e químicos que fogem ao controle dos humanos, a sociedade moderna e contemporânea acostumou-se a associar progresso humano ao progresso científico, isto é, que a cada nova tecnologia lançada também o ser humano “evoluiria” qualitativamente.
Contudo, mesmo institucionalmente, o autor vai defender que nem toda melhoria humana está ligada a processos de automação, sendo, na realidade, impossibilitada por eles. Por exemplo, nas práticas religiosas, nos debates políticos, nas inovações empresariais, no ensino universitário, entre outros costumes, os processos de automação comprometeriam a qualidade dos resultados. Dessa maneira, Neil Postman é categórico ao afirmar que só há avanço social por meio dos processos de automação se os cientistas continuarem a ocultar os efeitos negativos da tecnologia e a insistir na ideia de que empregar soluções automatizadas necessariamente melhoraria a vida humana.
**A coluna não expressa, necessariamente, a opinião do Grupo Thathi de Comunicação



