O primeiro domingo oficial da campanha presidencial de 2026 deixou algumas pistas importantes sobre o caminho que os candidatos pretendem percorrer até outubro. Mais do que apresentar propostas, os principais presidenciáveis começaram reafirmando identidade, ocupando territórios conhecidos e falando inicialmente para públicos nos quais já encontram algum grau de reconhecimento.
Lula voltou a São Bernardo do Campo, berço de sua trajetória sindical. Flávio Bolsonaro escolheu Copacabana, um dos principais símbolos das grandes manifestações do bolsonarismo. Ronaldo Caiado iniciou a caminhada em Goiás. Romeu Zema permaneceu em Minas Gerais, embora tenha escolhido Montes Claros, uma região eleitoralmente mais favorável a Lula. Renan Santos foi ao Largo São Francisco, diante da faculdade onde estudou.
Há uma lógica nisso. Campanhas costumam começar procurando chão antes de procurar teto. O primeiro movimento é mobilizar a própria base, reafirmar símbolos e gerar imagens capazes de comunicar identidade. O verdadeiro desafio começa agora: sair desses territórios de conforto e convencer o eleitor que ainda não pertence àquela comunidade política.
Mas dois elementos me chamaram especialmente a atenção.
O primeiro foi a presença das mulheres na narrativa dos candidatos. No ato de Lula, Janja teve protagonismo e dividiram o palco lideranças como Simone Tebet e Marina Silva. Marisa Letícia também foi lembrada. Flávio Bolsonaro apareceu ao lado da esposa, Fernanda, e Michelle Bolsonaro reforçou publicamente seu apoio à candidatura. Caiado iniciou sua campanha acompanhado de Gracinha Caiado e incorporou ao discurso propostas de endurecimento das penas contra agressores de mulheres. Zema falou em ampliar delegacias especializadas.
Não é coincidência. As mulheres representam 52,8% do eleitorado brasileiro, mas apenas 15,4% das candidaturas à Presidência são femininas. Em uma eleição apertada, nenhum candidato competitivo pode se dar ao luxo de tratar o voto feminino como uma agenda lateral.
O segundo sinal foi ainda mais evidente: a segurança pública virou uma espécie de idioma comum da campanha.
Flávio colocou o combate à criminalidade no centro de seu discurso. Lula voltou a defender a criação do Ministério da Segurança Pública. Caiado apresentou a segurança como uma das vitrines de sua experiência em Goiás. Zema prometeu endurecimento penal e um “superpresídio”. Renan Santos fez do combate ao crime organizado um dos pontos centrais de seu ato.
Os candidatos estão respondendo ao que enxergam nas pesquisas. Levantamento recente mostrou a segurança pública alcançando 30% das menções como principal preocupação nacional, à frente de saúde e corrupção. E a própria Quaest constatou nesta semana que segurança foi o assunto dominante em sete debates estaduais analisados.
Isso produz uma mudança interessante. Segurança pública deixou de ser uma pauta que a direita tentava monopolizar e passou a ser uma disputa sobre quem consegue apresentar a resposta mais convincente para o problema.
E talvez essa seja uma das primeiras grandes conclusões da campanha de 2026.
No domingo, cada candidato procurou mostrar de onde veio. A partir de agora, precisará explicar para onde pretende levar o país.
Porque eleição não se vence apenas falando para os seus.
A campanha começa de verdade quando o candidato consegue conversar com os outros.

