Investigadores aceitam reabrir negociação com Vorcaro, mas cobram delação completa e bens no exterior

Para que haja negociação, as autoridades esperam mudanças na postura de Vorcaro, que ele não minta e replete o esquema completo

Rovena Rosa/Agência Brasil

Autoridades responsáveis pelas investigações das fraudes do Banco Master afirmam ter disposição de ouvir uma nova tentativa de delação premiada de Daniel Vorcaro, mas exigem em troca boa-fé do ex-banqueiro e uma indicação precisa de todos os bens e recursos alocados no exterior.

O requisito principal é que haja uma mudança na postura de Vorcaro em relação às duas tentativas anteriores: que ele não minta e faça um relato completo do esquema, sem revelações seletivas.

Integrantes das equipes do caso disseram à Folha, sob reserva, que o ex-banqueiro precisa ter mais clara a dimensão da gravidade da situação que enfrenta. Apontado como líder da suposta organização criminosa que desviou recursos do Banco Master, ele deve entregar bom volume de informações sobre pessoas relevantes e, sobretudo, os caminhos para a recuperação de todo o dinheiro desaparecido.

Nas duas tentativas anteriores, Vorcaro deixou a impressão de que agiu de má-fé e de que tentou fazer as autoridades de bobas, nas palavras de dois interlocutores ouvidos. Isso porque teria relatado fatos já conhecidos dos investigadores ou tentado despistar detalhes.

Um dos episódios que mais despertou irritação da investigação foi a narrativa sobre o presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI), a quem Vorcaro tratou como “grande amigo de vida” em troca de mensagens com a ex-namorada Martha Graeff.

A própria investigação já teria avançado no caso e identificado uma proximidade que vai além da amizade entre o ex-banqueiro e o parlamentar.

Segundo as apurações, um auxiliar de Vorcaro no Master redigiu o texto do projeto legislativo conhecido como “emenda Master” e enviado ao senador, que o apresentou, sem alterações, no plenário. A Polícia Federal aponta que Vorcaro, em outro diálogo interceptado no WhatsApp, disse que o ato legislativo “saiu exatamente” ele havia mandado.

O projeto interessava ao Master porque visava a ampliação da cobertura do FGC (Fundo Garantidor de Crédito) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por depositante. Assim, os investidores dos CDBs (Certificados de Depósito Bancário) que a instituição vendia poderiam colocar mais dinheiro no banco.

Investigadores avaliam, com isso, que parte dos relatos sobre o tópico, incluindo a insistência em uma relação de amizade entre ambos, não foram verídicos. Assim, um dos critérios para voltar a negociar seria Vorcaro não voltar a mentir, nas palavras de um desses envolvidos.

A possibilidade do ex-banqueiro tentar um novo acordo de delação premiada voltou a ser considerada passados dois meses da segunda rejeição e após mais uma troca na equipe de defesa do ex-banqueiro.

O advogado Daniel Bialski ingressou na equipe de Vorcaro no último mês. Ele passou a atuar nas investigações criminais em conjunto com o advogado Sérgio Leonardo, amigo do ex-banqueiro e na defesa dele desde o início da Operação Compliance Zero.

Bialski afirmou em entrevista à GloboNews que o dono do Banco Master “quer falar e quer colaborar” mais uma vez, “se precisar e se tiver a oportunidade”.

A interlocutores, no entanto, tem dito que as conversas iniciais têm tratado de temas mais amplos do processo até o momento.

O novo advogado já solicitou uma audiência com o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) André Mendonça, relator do caso.

O gabinete do ministro rechaça a possibilidade de tratar de uma nova tentativa de delação. A pessoas próximas, Mendonça tem afirmado ter disponibilidade para receber os advogados dos casos que conduz, mas diz que não cabe a ele conversar sobre o desenho de uma delação.

Uma das possibilidades é que as demandas girem, por exemplo, em torno de uma ampliação nas horas de visitas.

Vorcaro está preso na unidade prisional conhecida como Papudinha, no Distrito Federal, desde junho, depois de a Polícia Federal e a PGR (Procuradoria-Geral da República) rejeitarem sua segunda proposta de delação premiada.

Antes disso, ele estava preso na Superintendência da Polícia Federal do DF, onde tinha mais acesso aos seus advogados.

PF e PGR não foram contatadas, até o momento, pela defesa do ex-banqueiro. Nos bastidores, a abertura tem se mostrado maior com a Polícia Federal do que com a PGR.

Um dos fatores para a reabertura das tratativas é a avaliação de que a repatriação de recursos sem a colaboração de Vorcaro pode dificultar e atrasar bastante o processo.

Sem a delação, a operação de retomada dos valores se torna bem mais complexa, muito difícil ou uma corrida de obstáculos, segundo investigadores. Um integrante da equipe de negociação afirmou que o grupo sabe que existe dinheiro remetido ao exterior, mas não detalhes sobre onde ou quanto, e esse seria um dado importante que ele poderia levar para a mesa.

Existe ainda o risco de perda dos recursos pelo processo tradicional, ou seja, esperar a ação tramitar, a eventual condenação do ex-banqueiro e o trânsito em julgado, além de os investigadores encontrarem os valores por conta própria.

Envolvidos nas conversas com Vorcaro têm afirmado, porém, que a investigação já tem, de forma autônoma, muito material reunido, além daquele colhido por meio das operações.

Ainda dizem que o caso não chegou à metade e, portanto, há mais elementos a reunir por conta própria. Dessa forma, os investigadores têm afirmado não dependerem da delação para o andamento do caso.

O interesse em uma colaboração premiada se dá, no geral, de acordo com a legislação, pela identificação de coautores, a localização de provas e também a recuperação de ativos, a depender do crime, há também a localização de vítimas.

ANA POMPEU / Folhapress

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