


O governo do presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, busca uma reaproximação com o Brasil e deve indicar diplomata para liderar a embaixada em Brasília após mais de um ano sem representante no posto. A mais cotada para a vaga é Inna Vasylivna Ohnivets, ex-embaixadora em Portugal, segundo integrantes do governo brasileiro e ucraniano.
A indicação pode ocorrer ainda nesta semana. Integrantes do Itamaraty esperam ser comunicados oficialmente nos próximos dias, mas já receberam indicativos de que a diplomata deve ser a escolhida. Caso seja confirmada, Ohnivets será submetida ao procedimento diplomático de agrément, pelo qual o governo brasileiro manifesta concordância com a nomeação do novo chefe de missão.
Diplomata de carreira, ela chefiou a representação ucraniana em Lisboa por quase sete anos, e também foi embaixadora na Eslováquia. Além disso, trabalhou no departamento do Ministério das Relações Exteriores responsável pelas comunidades ucranianas no exterior e pela cooperação humanitária. Seu nome foi bem avaliado de forma preliminar por integrantes da diplomacia brasileira.
O governo Zelenski já conversava há alguns meses com diplomatas que falam português para a nomeação ao posto brasileiro. O momento da indicação coincide com a reunião anual dos embaixadores ucranianos em Kiev, evento ocorrido nesta segunda (3) com a participação de Zelenski e no qual costumam ser anunciadas ou consolidadas mudanças no corpo diplomático.
Além da indicação para a embaixada no Brasil, o presidente ucraniano deve anunciar mudanças em outras 15 representações diplomáticas ao redor do mundo. No discurso, Zelenski disse que uma das intenções é se aproximar da América Latina. “Uma região na qual Moscou manteve uma posição firme por muito tempo. Até agora, para ser sincero” afirmou.
“Mas a América Latina está mudando. Esses são passos diplomáticos importantes para nós. Kiev precisa ser ouvida lá. E a experiência ucraniana, em particular com voluntários [isto é, combatentes], confirma que, de muitas maneiras, nosso povo valoriza igualmente a liberdade, a coragem e a dignidade”, prosseguiu Zelenski.
A Ucrânia está sem embaixador no Brasil desde maio de 2025, quando Andriy Melnyk foi retirado do posto e transferido para o cargo de representante permanente da Ucrânia nas Nações Unidas, em Nova York. Desde então, a embaixada ucraniana em Brasília é comandada por um encarregado de negócios.
A decisão ocorreu em meio ao desgaste nas relações entre os dois países, provocado pela posição de neutralidade adotada pelo governo Lula (PT) em relação à guerra com a Rússia e por críticas de autoridades ucranianas à condução da política externa brasileira sobre o conflito, principalmente devido à relação próxima do petista com o presidente russo, Vladmir Putin.
Melnyk incomodou o governo brasileiro após declarações públicas sobre a posição do Brasil no conflito no leste europeu. Em entrevista à Folha em 2024, por exemplo, disse que Lula poderia ter perdido a chance de servir como mediador ao não priorizar a Ucrânia no documento final do G20, quando o Brasil presidiu o fórum.
A indicação da nova embaixadora, caso confirmada, ocorre em um momento de reaproximação entre Brasil e Ucrânia. Segundo uma fonte da diplomacia brasileira, o diálogo entre os dois países avançou significativamente no último ano, com dois encontros entre Lula e Zelenski e cerca de dez reuniões entre chanceleres e outras autoridades de alto escalão.
O governo da Ucrânia vê o Brasil como uma peça importante em eventuais negociações de paz, segundo essa fonte da diplomacia brasileira. O governo ucraniano chegou a consultar Brasília sobre uma possível mediação, em um sinal do fortalecimento do diálogo entre os dois países. No início do atual mandato, Lula, junto da China, tentou se posicionar como mediador entre Kiev e Moscou, sem sucesso.
O último encontro entre Lula e Zelenski ocorreu no G7, na França, em junho, a pedido do ucraniano. “Por cerca de 40 minutos, ouvi suas avaliações sobre as situações atuais do conflito, das possibilidades de um cessar-fogo e a busca de uma solução diplomática. Expus minha expectativa de que o Conselho de Segurança da ONU possa atuar de forma mais efetiva para encerrar um conflito que já dura mais de quatro anos. Acordamos manter contato nas próximas semanas”, escreveu Lula no X.
A mensagem também foi compartilhada por Zelenski em sua conta. “Boa reunião no G7 com o Presidente do Brasil, Lula da Silva, principalmente sobre os caminhos para encerrar a guerra agressiva da Rússia.”
GUILHERME PIMENTA / Folhapress
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