Ana Maria Gonçalves, agora imortal, e sua obra monumental

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Eu sempre fui uma leitora ponta firme, daquelas que leem um único livro por vez e jamais os abandona no meio. Nunca fui de ter livros enfileirados. Era uma rara leitora que comprava livros e os lia antes de comprar outros. Uso o verbo no passado porque agora tenho filho e aí…mal consigo ler bula de remédio. Eu leio porque gosto e dá assunto (não há nada mais “hype”, atualmente, que fazer parte de clubes dos livros). Porque literatura, se não consola, acolhe, e é um jeito de organizar o mundo – roubei essa frase do Paul Auster ou da Susan Sontag, eu acho.

Mas voltemos ao assunto principal desta coluna. Após ler e ouvir muitas pessoas indicando o livro “Um defeito de cor”, escrito por Ana Maria Gonçalves, eu o comprei. Lembro do dia que o folheei pela primeira vez. Com suas quase mil páginas, ele é imponente e, por isso mesmo, permaneceu em minha estante por quase um ano sem ser tocado.  

Um dia, zapeando a TV, me deparei com uma entrevista da Ana e após assisti-la, peguei o livro e comecei a lê-lo, com uma obstinação inabalável. Dediquei quatro dias a ele. Boa parte das 24 horas destes quatro dias eu permaneci com ele em minhas mãos. E foi com as mãos trêmulas que o fechei, completamente transformada, após ler suas últimas palavras. O que começa como a carta de uma mulher preta à procura de seu filho perdido se transforma em um espelho partido em que, aos poucos, reconhecemos nossas rachaduras. Aquelas que nos foram dadas — pelo sangue, pela história, pela terra.

Há livros que atravessam a gente. Outros nos convocam. Um defeito de cor faz as duas coisas. O romance é, claro, um monumento literário. Mas também é mais do que isso: é reparação. É rito. É gesto de resgate e dignidade. Ana Maria Gonçalves não apenas preencheu lacunas da história oficial, ela lhes deu nome, corpo, cheiro, desejo, dor. Transformou o papel em carne.

Ler Um defeito de cor foi, para mim, uma experiência ritualística. Eu lia como quem acendia uma vela, como quem escutava uma reza em iorubá sem entender a tradução, mas sentindo a força ancestral da vibração. Em alguns trechos, precisei parar e respirar fundo, como se estivesse ouvindo um segredo antigo demais para ser revelado sem dor.

E entre as páginas, entendi por que a literatura importa. Porque ela nos devolve o que foi roubado: a narrativa. Durante séculos, corpos negros foram escritos por


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outros. Neste livro, finalmente, uma mulher preta escreve a si mesma — e, ao fazer isso, escreve a todos nós.  

Ana Maria Gonçalves é esta mulher preta, a primeira que entra pelas portas da Academia Brasileira de Letras, uma instituição literária fundada também por um preto, o escritor Machado de Assis.  

Um defeito de cor é sobre Kehinde, é sobre África, é sobre Brasil. Mas também é sobre mim, sobre você, sobre a memória que pulsa mesmo quando tentam apagá-la.

Entrevistei a Ana em meu programa Vozes da Vez que vai ao ar aqui na NOVABRASIL. Valer ouvir nosso papo, uma conversa cheia de emoção e respeito por nossas ancestralidades.  

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