Esquecer onde deixou as chaves nem sempre é Alzheimer; veja quando acender o alerta

Perder as chaves, esquecer o nome de alguém conhecido ou deixar passar a data de uma consulta são situações comuns no dia a dia e, na maioria das vezes, não significam que uma pessoa esteja desenvolvendo Alzheimer. O neurologista Iago Navas Perissinotti explica que reclamações de “memória fraca” aparecem com frequência no consultório e também em pesquisas com adultos sem doenças neurológicas.

Estudos indicam que uma parcela significativa de adultos relata algum nível de esquecimento quando é perguntada diretamente sobre o tema. Para o especialista, isso ajuda a colocar em perspectiva uma angústia comum: “Esquecimentos isolados, especialmente em fases de estresse e rotina intensa, nem sempre apontam para um processo neurodegenerativo”, afirma.

Parte dessa explicação está no modo como o cérebro forma e resgata lembranças. O processo passa por etapas como captar a informação, fortalecê-la com o tempo e depois recuperá-la quando necessário. “Quanto mais repetimos uma informação e quanto maior o peso emocional dela, maior a chance de ela virar uma memória sólida”, destaca Perissinotti. É por isso que datas importantes tendem a ficar mais firmes do que detalhes do cotidiano, como onde os óculos foram guardados.

Além disso, existem fatores que atrapalham a formação adequada dessas memórias. Privação de sono, ansiedade, transtornos de humor, sobrecarga mental e uso de algumas substâncias ou medicamentos podem interferir nesse mecanismo. Em outras palavras: numa semana atribulada, o cérebro pode simplesmente não “registrar” com qualidade determinadas informações.

O que pode ser normal e o que merece investigação

Esquecer pontualmente um compromisso, confundir datas em períodos de muita pressão ou demorar para lembrar o nome de um conhecido distante pode ser compatível com cansaço e falta de atenção. “Se o cérebro está consumindo energia com várias demandas ao mesmo tempo, ele pode não conseguir dedicar recursos suficientes para fixar aquela lembrança”, explica o neurologista.

Já alguns comportamentos fogem do padrão esperado e merecem atenção por estarem associados a maior impacto no funcionamento diário. Entre eles estão repetir várias vezes a mesma informação logo após tê-la dito, esquecer com frequência compromissos importantes e se perder em locais familiares. Nesses casos, o especialista alerta que pode haver um problema mais sério por trás do sintoma.

Foto: Freepik.

A avaliação, segundo Perissinotti, começa com uma conversa detalhada com o paciente e, quando possível, com familiares próximos, justamente para diferenciar episódios isolados de um padrão repetitivo que prejudica a autonomia. Também entram na investigação hábitos de sono, rotina, sinais de ansiedade e depressão, além do uso de medicamentos e outras substâncias.

Testes de funções cognitivas, que medem aspectos como memória, atenção e linguagem, podem ajudar a comparar o desempenho com o esperado para a mesma idade e escolaridade. Quando a dúvida persiste, pode ser necessário avançar para exames complementares, como exames de imagem e laboratoriais, biomarcadores ou uma avaliação neuropsicológica mais detalhada.

O médico ressalta que nem todo problema de memória está ligado ao Alzheimer e que outras condições podem estar por trás das queixas, inclusive em pessoas jovens. “Dificuldade de organização, perdas frequentes de compromissos e prejuízo no trabalho podem estar relacionados a TDAH ou depressão, por exemplo, e isso pode ter tratamento”, afirma.

Por fim, ele chama atenção para uma confusão comum: alguma redução cognitiva pode ocorrer com o envelhecimento, mas esquecimentos intensos e que atrapalham as atividades diárias não devem ser atribuídos automaticamente à idade. Na dúvida, procurar um neurologista é o caminho mais seguro para esclarecer a causa e proteger a saúde do cérebro.

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