De onde vem a crítica do brasileiro ao Homeschooling?

A imagem de educação institucionalizada em “O Ateneu”, de Raul Pompeia

Foto: Rede social

Sergio tinha cerca de 11 anos quando migrou das escolas familiares e das aulas em domicílio para um internato no Rio de Janeiro. Em sua chegada ao instituto educacional, juntamente com outros alunos, foi recebido pelo discurso de Venâncio, um dos professores do colégio, que mencionava o papel das instituições de ensino na sociedade: “a família é o amor no lar, o Estado é a segurança civil; o mestre […] ensina e corrige”. De maneira ainda mais alegórica, ao observar melhor o espaço da escola, Sergio percebeu nos quadros pendurados nas paredes que o objetivo da nova instituição seria formar pessoas de modo a serem úteis para o modelo burguês e industrial.

Para além de simbolizar a transição entre a inocência da infância e a promessa de abertura de mundo, o início do romance de Raul Pompeia, “O Ateneu” (1888), elucida a divisão entre a educação familiar ou domiciliar e a educação institucionalizada. O personagem narrador, Sérgio, vê no primeiro cenário elementos lúdicos e afetuosos. O lanche que era servido ao meio-dia, a lembrança da fisionomia dos colegas e as memórias das aulas dos preceptores compunham uma imagem de educação flexível, personalizada e atenciosa, mesmo que sem luxo. Já no cenário do internato, mais luxuoso e opulento, despontava a rigidez e falsidade. A rotina militar e a reverência ao Império, a fé cega dos professores em sua missão ilustrada e a atuação de Aristarco serviam para padronizar o indivíduo e separar o menino da família – separação mais clara quando D. Ema o sugere cortar os cabelos.

Passados quase 140 anos da publicação da obra naturalista de Pompeia, aproximadamente 6 gerações foram formadas lendo livros que retratavam, mesmo que sutilmente e como plano de fundo, a educação dos brasileiros. Seja a partir do realismo machadiano em “Dom Casmurro” ou do romantismo de José de Alencar em “Senhora”, é perceptível o pessimismo quanto às instituições educacionais que, no melhor dos cenários, não impediam o ser humano de se confrontar com sua dura natureza. Diante dessas influências literárias, a questão que surge atualmente é: de onde o brasileiro retira tanta confiança no ensino e currículo estatal a ponto de impedir a existência de outras opções?

De volta ao Ateneu narrado por Sérgio, é possível perceber alguns vícios institucionais que fariam aqueles que possuem memória literária ponderar um pouco sobre sua confiança. Criando um paralelo com muitos casos atuais, lembrar-se-iam, por exemplo, que o diretor do internato foi descrito como um alguém que mantinha a robustez de um “imperador decadente”, que vivia para a “pose, para o efeito, para a publicidade”. Igualmente, relacionariam o presente à descrição do frágil material didático produzido por Aristarco, livros feitos às pressas, a partir do trabalho de “algum mestre anônimo e faminto”, que ganhara pouco para, no fim, enfatizar os servidores públicos e presidentes das províncias.

De maneira mais visceral, seria possível relacionar ainda com nossos tempos os efeitos do instituto nos jovens. Observando os alunos na praia, Sergio percebe que a reclusão, as carteiras e o saber superficial e mecânico entorpeciam um cérebro já “cheio de fórmulas vazias e a alma deserta de ideias próprias”. Os efeitos disso, ainda eram vistas na “miséria dos corpos” dos alunos, que indicavam “o inventário da nossa ruína, a exposição da nossa falência humana”.

É verdade que as escolas atuais são pensadas para fugir do modelo construído por Raul Pompéia e que as estratégias pedagógicas, ao menos em suas publicidades, hoje pregam o contrário das práticas de Aristarco. Porém, diante dos exemplos literários de educação institucionalizada aos quais fomos expostos por mais de um século, é curioso que o brasileiro nutra tanta confiança no modelo estatal e institucional a ponto de não permitir que concidadãos empreguem outra modalidade de ensino, mesmo que uma não ameace a outra e que seus agentes demonstrem capacidade de levar o formato adiante.

**A coluna não expressa, necessariamente, a opinião do Grupo Thathi de Comunicação.

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