Por que os piores chegam ao poder?

O caminho da servidão, de Friedrich von Hayek

El Coloso, de Francisco de Goya | Foto: Reprodução

Experiente em processos eleitorais, o cidadão comum – aquele que acorda cedo e volta tarde para casa todos os dias e que não encontra muito tempo para problematizar os fundamentos sociais e históricos de suas escolhas – já sabe que, passado o período de votação, a sociedade entrará em quatro anos de ressaca política. Nesse momento, quanto mais honesto o eleitor, mais os sentimentos de frustração e de que talvez tenha feito uma má escolha tornam-se presentes. Só aí, depois do leite derramado, que o cidadão buscará compreender como seus líderes e representantes podem ser tão despreparados e cruéis.

Compreender esse sentimento ocupou economistas e filósofos no século passado que, observando a ascensão de regimes totalitários pelo mundo, procuraram entender como de sociedades democráticas nascem líderes maus e perversos. Perguntando de outro modo, por que políticos corruptos e cruéis são escolhidos e eleitos mesmo quando os eleitores possuem boas intenções? Entre as respostas, encontramos a célebre e comumente retomada explicação do economista Friedrich von Hayek. Na obra “O caminho da servidão” (1944), o autor indica três principais razões para que os piores sempre cheguem ao poder.

A primeira razão apresentada por Hayek revela que os piores e mais inescrupulosos polítcos buscam primeiramente nos coletivos e na massa a força inicial para imporem suas ideias sobre o restante da população. Enquanto os indivíduos de maior nível educacional e intelectual possuem mais dificuldade de se agregarem e encontrarem gostos, opiniões e padrões morais em comum, aqueles que possuem um grau mais baixo de educação tendem a constituir grupos e coletivos em que a exigência moral é mais flexível. Os coletivistas, de acordo com as observações do economista, tornam-se os maiores aliados dos piores políticos, enquanto os individualistas, por possuírem “gostos altamente diferenciados”, acabam sustentando de forma individual seus próprios ideais.

Porém, não sendo numericamente suficientes esses coletivos para vencer uma eleição, os políticos ainda necessitam convencer mais uma camada de eleitores. Nesse ponto, entra o segundo princípio da escolha pelo pior. São os dóceis e simplórios, que não possuem força de espírito para defender seus valores individuais, que acabam sendo convencidos da falsa vantagem de se viver em um sistema de valores previamente elaborados. Aqui, cabe que o pior dos políticos faça um estardalhaço e prometa que defenderá em nome do eleitor todo um sistema de crenças, de classe ou princípios políticos e econômicos.

Já conquistada uma boa parte do eleitorado através da fraqueza dos dóceis e da flexibilidade moral das massas, o político vai buscar, por fim, apoio nos discursos demagógicos pautados pela contraposição do “nós” e “eles”. O “nós” seria marcado pelas pessoas que acreditam estar de fora do sistema e que foram excluídas por entidades abstratas e arbitrárias. Já “eles” podem ser os inimigos externos ou internos, que ameaçariam os coletivos locais com objetivos voltados aos indivíduos.

O conjunto desses três princípios daria corpo ao que Hayek vai chamar de “moral coletivista”. Quanto mais uma sociedade atender a esses quesitos – baixo apreço pela educação e intelectualidade, falha em defender seus próprios valores e suscetibilidade a discursos demagógicos – piores serão seus representantes. Assim, entendemos que seria no enfraquecimento das individualidades e no embrutecimento dos grupos pelas ideologias coletivistas que o totalitarismo e a corrupção floresceriam: “no coletivismo não há lugar para o amplo humanitarismo do liberal, mas apenas para o estreito particularismo do totalitário.”

**A coluna não expressa, necessariamente, a opinião do Grupo Thathi de Comunicação

 

 

 

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