Por muito tempo, quando o assunto era saúde mental no ambiente corporativo, o foco esteve voltado para os colaboradores, mas uma discussão cada vez mais necessária tem ganhado espaço: quem cuida da saúde mental daqueles que lideram?
Além da entrega de metas e resultados, os gestores precisam administrar equipes, conduzir mudanças organizacionais, lidar com conflitos, promover engajamento e, ao mesmo tempo, manter o equilíbrio emocional diante de um ambiente corporativo em constante transformação.
Os números ajudam a dimensionar o problema. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que transtornos como ansiedade e depressão estão entre as principais causas de afastamento do trabalho em todo o mundo. Quando o olhar se volta para as lideranças, o cenário também preocupa. Segundo levantamento da Gupy, os gestores já são o quarto grupo mais afetado por questões relacionadas à saúde mental. Outro dado alarmante, publicado pela Harvard Business Review, aponta que mais de 90% dos líderes relatam níveis elevados de estresse. Ou seja, justamente aqueles que são chamados a conduzir pessoas e impulsionar resultados também enfrentam desafios emocionais cada vez mais intensos.
A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que reforça a necessidade de identificar e gerenciar riscos psicossociais no ambiente de trabalho, trouxe ainda mais visibilidade ao tema. A medida representa um avanço importante ao reconhecer que fatores como excesso de pressão, assédio, jornadas desgastantes e ambientes tóxicos também devem ser considerados na gestão de riscos ocupacionais.
Mais do que atender a uma exigência regulatória, as organizações têm sido desafiadas a repensar sua cultura. Isso significa criar ambientes psicologicamente seguros, incentivar o diálogo aberto sobre saúde mental e oferecer suporte não apenas aos colaboradores, mas também às lideranças.
A discussão ganha ainda mais relevância porque a própria liderança será peça fundamental na implementação dessa nova cultura organizacional. No entanto, surge uma questão inevitável: como esperar que líderes promovam ambientes mais saudáveis se eles próprios estão adoecidos?
Precisamos redesenhar o papel da liderança. O modelo tradicional, centrado apenas na cobrança por resultados, já não responde às demandas do mundo do trabalho. O líder do futuro precisará equilibrar três pilares fundamentais: pessoas, negócios e gestão de projetos.
A gestão de pessoas exige líderes mais preparados para desenvolver talentos e promover ambientes emocionalmente seguros. Somado a isso, cresce a importância da gestão de projetos, com foco na organização de processos, prazos, fluxos de comunicação e estratégias que reduzam fatores geradores de estresse dentro das equipes.
O debate também passa por uma mudança de mentalidade. Liderar não significa estar imune às dificuldades emocionais, mas reconhecer seus limites e buscar apoio quando necessário. Afinal, cuidar da saúde mental das lideranças é uma decisão estratégica para os negócios.


