NR-1: A norma que obriga as empresas a cuidarem da sua mente, não só do seu corpo

Thaís Cremasco
Thaís Cremasco
Thaís Cremasco é uma advogada e ativista reconhecida por sua atuação estratégica na defesa dos Direitos Humanos. Sua expertise é fundamentada pela especialização em Gênero e Saúde da Mulher pela Universidade de Stanford (EUA), pela pós-graduação em Direito do Trabalho e Previdenciário e por certificações em Violência Baseada em Gênero de agências das Nações Unidas (UNICEF). É também professora de direito trabalhista na pós-graduação em Direito da Mulher.Sua liderança institucional inclui posições de destaque, como Conselheira Estadual da OAB/SP por dois triênios (2021–2024 e 2025–2028), Coordenadora do Núcleo de Violência contra a Mulher da OAB/SP e Presidente da Associação dos Advogados Trabalhistas de Campinas. Seu trabalho foi reconhecido com o Prêmio "Mulheres de Destaque" da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (ALESP) e o Prêmio de Mérito Jurídico "Elbino Silva Filho" da Câmara Municipal de Campinas.Com uma trajetória internacional que inclui a representação do Brasil na Organização Internacional do Trabalho (OIT), em Genebra, e a participação na Comissão de Combate ao Assédio do TRT-15 (representando a OAB), Thaís é uma voz influente no debate público. Atua como colunista na CBN (programa "Mulher em Pauta"), Jovem Pan ("Linha de Frente") e Revista Fórum.Cofundadora do Coletivo Mulheres pela Justiça, seu ativismo em causas raciais e de gênero é marcado por resultados transformadores, sendo responsável pelo caso que levou à primeira expulsão de alunos por racismo na história do Brasil. Como palestrante, leva sua abordagem que une teoria, empatia e transformação social a instituições de renome como a Universidade de Coimbra, Justiça do Trabalho e SENAC.Atuando nos principais casos de violência contra a mulher, direitos trabalhistas e racismo do país, Thaís Cremasco consolidou sua reputação por uma postura firme, humanista e comprometida com a justiça social.

Uma norma regulamentadora entrou em vigor e você provavelmente nunca ouviu falar dela. Não virou manchete de novela, não estourou no TikTok. Mas ela pode mudar a sua vida — especialmente se você trabalha fora de casa, divide sua rotina entre o emprego e a família, e sente que nunca é suficiente.

Chama-se NR-1. É uma norma do Ministério do Trabalho que existia há décadas cuidando de riscos físicos no trabalho: aquela máquina sem proteção, o produto químico sem luva, a escada sem corrimão. Só que a partir de agora ela ganhou um capítulo novo — e esse capítulo fala de algo que a gente carrega muito, mas raramente alguém toma conta: a saúde mental.

A empresa passa a ser obrigada a identificar o que está adoecendo as pessoas dentro dela. Aquele chefe que grita na reunião? Risco a ser mapeado. A meta impossível que te faz trabalhar até às 23h? Risco a ser mapeado. O colega que humilha, o ambiente que sufoca, a pressão que não para nunca? Tudo isso vira responsabilidade legal da empresa — com fiscalização e multa para quem não cumprir. Não é mais só conversa de palestra de bem-estar. É obrigação com consequência.

Mas por que isso é uma pauta de mulher? Porque os dados mostram que somos nós que mais adoecemos. Em 2024, dos quase 500 mil trabalhadores afastados pelo INSS por problemas de saúde mental — ansiedade, depressão, esgotamento — 64% eram mulheres. Com idade média de 41 anos. Afastadas por até três meses. E sabe o que torna isso ainda mais pesado? Essas mulheres sustentam quase metade dos lares brasileiros.

Quando a mulher adoece a mente, a família sente junto.

E tem mais: 36% das mulheres brasileiras relatam ter sofrido assédio dentro do próprio ambiente de trabalho. O assédio sexual, segundo os dados nacionais, tem 72% das denúncias feitas por mulheres. A gente é quem mais sofre, quem mais adoece — e até agora era a gente que precisava provar que o ambiente era tóxico para ter algum direito.

A NR-1 vira essa lógica de cabeça para baixo. Agora é a empresa que precisa provar que fez a prevenção. Que mapeou os riscos. Que agiu. Que não ficou de braços cruzados enquanto a equipe entrava em colapso.

Isso não significa que o assédio vai acabar amanhã. Não significa que o adoecimento mental vai sumir — o Brasil é o segundo país do mundo com mais casos de burnout, perdendo só para o Japão, e os afastamentos por esgotamento saltaram de 823 para mais de 7 mil só nos últimos quatro anos. Mas significa que a trabalhadora que adoece a partir de agora tem mais ferramentas para buscar seus direitos na Justiça.

Se a sua empresa não cumpriu a norma, você pode denunciar ao Ministério do Trabalho. Se você já adoeceu por causa de um ambiente de trabalho abusivo, procure uma advogada trabalhista — pode haver direito a indenização e estabilidade no emprego. E se você está nesse momento numa situação de pressão que está te consumindo: você não está exagerando. Isso tem nome. Tem norma. E agora tem consequência para quem causa.

A sua mente também merece proteção.

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