O crescimento de Augusto Cury e o eleitor cansado do confronto

Elias Tavares
Elias Tavares
Elias Tavares é cientista político, especialista em comunicação eleitoral e marketing político, com atuação voltada à análise de cenário, opinião pública e estratégia política.Natural de São Paulo e filho da Zona Leste paulistana, construiu trajetória ligada à gestão pública, comunicação e política institucional. É bacharel em Ciência Política, possui formação em Gestão Pública, Marketing e especializações voltadas à comunicação política, gestão partidária e administração pública.Também atua como articulista e comentarista político, produzindo análises sobre eleições, articulação política, comportamento do eleitorado e os bastidores do poder no Brasil.
Imagem: divulgação

A pesquisa BTG/Nexus divulgada neste último dia de agosto trouxe uma movimentação que merece atenção. Augusto Cury saltou de 2% para 11% das intenções de voto e passou a ocupar, com alguma consistência, o espaço que até aqui parecia vazio entre Lula, Flávio Bolsonaro e os demais candidatos.

O dado é relevante não apenas pelo crescimento de Cury, mas principalmente pelo que ele pode revelar sobre o comportamento do eleitor.

Enquanto Cury avançou nove pontos, Flávio Bolsonaro recuou quatro, Lula caiu dois e Romeu Zema também perdeu dois pontos. A pesquisa, evidentemente, não permite afirmar de maneira automática que houve transferência direta de votos entre esses candidatos. Mas o movimento simultâneo sugere que o crescimento de Cury não está restrito a um único campo ideológico.

Esse talvez seja o ponto mais interessante.

Cury tem construído uma presença pública marcada por um comportamento distinto daquele que dominou a política brasileira nos últimos anos. Fala baixo, evita confrontos diretos, utiliza uma linguagem mais moderada e procura transmitir equilíbrio e serenidade.

Em uma eleição fortemente marcada pela polarização, esse estilo pode estar encontrando uma demanda eleitoral específica: a de um eleitor que continua interessado em política, mas está cansado do conflito permanente.

Isso não significa que o brasileiro tenha abandonado suas posições ideológicas, muito menos que a polarização tenha desaparecido. Lula e Flávio Bolsonaro continuam dominando o cenário eleitoral e permanecem extremamente competitivos.

Mas os 11% de Cury indicam que existe espaço para uma comunicação política menos agressiva.

Esse espaço, contudo, precisa ser testado.

Ao observar suas participações nos debates e, principalmente, sua entrevista ao Jornal Nacional, ainda é possível identificar uma fragilidade importante. Cury consegue apresentar conceitos, valores e diagnósticos, mas ainda demonstra dificuldade para transformar esse discurso em propostas concretas de governo.

Governar exige mais do que equilíbrio emocional e capacidade de comunicação. Exige decisões econômicas, políticas públicas, prioridades orçamentárias, articulação institucional e respostas objetivas para problemas complexos.

E é justamente aí que começa a próxima etapa da candidatura.

Até agora, Cury pôde crescer como novidade. Com 11%, deixa de ser apenas um personagem alternativo e passa a ser observado com outra intensidade por adversários, imprensa e eleitorado.

Vai ser confrontado. Vai ser cobrado. Vai precisar detalhar propostas. E inevitavelmente também passará a sofrer ataques.

É o caminho natural de qualquer candidatura que começa a ocupar espaço relevante.

Por isso, a grande pergunta das próximas semanas não será apenas se Augusto Cury conseguirá manter os 11%.

Será saber se ele consegue transformar serenidade em projeto de país.

O crescimento de Cury pode ser apenas um fenômeno momentâneo de campanha. Mas também pode estar revelando algo mais profundo: existe um eleitor procurando uma forma diferente de fazer política.

Talvez, em uma eleição marcada por tantos gritos, falar mais baixo esteja se tornando uma maneira de ser ouvido.

COMPARTILHAR:

Participe do grupo e receba as principais notícias de Campinas e região na palma da sua mão.

Ao entrar você está ciente e de acordo com os termos de uso e privacidade do WhatsApp.

NOTÍCIAS RELACIONADAS