No começo do século 20, André Siegfried, escritor e acadêmico francês, especializado em geografia e política, relatou que a economia desse lado do Atlântico é marcada por “uma vida de luxo, de refinamento, de ostentação, acompanhada de generosidade, de benevolência instintiva e de desperdício”. No livro Amérique Latine [América Latina], publicado em Paris em 1934 e sem tradução para o português, ao comparar os costumes da população europeia com os hábitos dos habitantes do novo mundo, o escritor demonstra que havia entre esses dois povos uma diferença no pensamento econômico definida pela geografia.
Por lá, nos diz Siegfried, o dinheiro não fluía ou circulava com facilidade. Marcada pela dúvida em relação ao futuro, a relação dos franceses, ingleses, espanhóis e portugueses com a economia materializava-se na poupança, na contenção e no comedimento. De acordo com o autor, as pessoas do antigo continente se acostumaram a entender a riqueza como algo escasso e o dinheiro como aquele bem necessário para suprir toda e qualquer má sorte que o futuro reservasse.
Já por aqui, o ensaísta político descreve um cenário de mais fluidez e ostentação financeira: “Como são sedutores, irresistíveis, esses países latinos do outro lado do Atlântico, quando a sorte sorri, quando o dinheiro corre frouxo!”. Os povos latino-americanos, mesmo aqueles que chegaram de migrações ou diásporas, cederam à ideia de uma riqueza natural inesgotável e de um espaço que, quando explorado, ampliaria as oportunidades. Tanto no Norte quanto no Sul, a América foi, portanto, formada por otimistas, que não valorizavam o acúmulo de capital e costumavam esbanjá-lo.
Mas o desapego financeiro custava caro ao brasileiro. Em suas andanças pela América Latina, André Siegfried observou ainda que os costumes econômicos latino-americanos resultavam na paralisação nacional. Uma vez que o capital não se acumulava de forma suficiente a ser convertido em desenvolvimento, permanecendo investido em bens fundiários, a implementação de indústrias, obras públicas, minas e outras formas de capitais massivos ocorria através de empréstimos e de aquisições de dívidas externas. Por um lado, os empresários estrangeiros permaneciam no país como uma “classe impermeável”, por outro, os nacionais não faziam nenhum esforço para investir em desenvolvimento ou se recolocar diante do capital externo.
A descrição do começo do século feita por Siegfried nos ajuda a entender por que o aumento de preços, o favorecimento de parentes e amigos por meio da máquina pública, o aumento de dívida externa, a estagnação de IPOs, os baixos índices de desempenho escolar, o aumento da violência e outras estatísticas parecem não afligir mais da metade dos cidadãos. Os mesmos vícios da ostentação, do fisiologismo e do desperdício de recursos descritos no começo do século 20 ainda são vistos no modelo econômico atual.
Assim, prazer de agradar aos amigos e de gastar sem controle somam forças com a esperança de que o futuro está de alguma maneira garantido e que o desenvolvimento econômico não é necessário. Porém, como relembra o autor, “a confiança é mãe da imprudência”, e é perigoso que ela chegue até nossos tempos no formato de apatia ou nulidade.
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