O avanço de medicamentos injetáveis usados para diabetes tipo 2 e obesidade transformou a maneira de tratar essas doenças e trouxe novas possibilidades de controle do peso em pacientes com indicação clínica. Ao mesmo tempo, a popularização das chamadas “canetas emagrecedoras” tem levado ao uso por conta própria, por motivação estética e sem acompanhamento médico, o que acende um alerta na saúde pública.
O clínico Alfredo Salim Helito afirma que o problema não está nos remédios em si, mas na forma como eles têm sido utilizados. “São medicamentos potentes, com benefícios reais quando bem indicados, mas o uso indiscriminado pode trazer complicações”, alerta o médico.
Entre os fármacos mais conhecidos estão Ozempic, Wegovy e Mounjaro, que atuam em mecanismos hormonais ligados à saciedade e ao controle da glicose e podem reduzir o apetite, melhorar o controle glicêmico e contribuir para perda de peso em pessoas com critérios clínicos definidos. Também há relatos de melhora metabólica em parte dos pacientes, como em casos de esteatose hepática.
Efeitos colaterais e grupos que exigem mais cuidado
Por interferirem diretamente no apetite e no funcionamento do sistema digestivo, esses medicamentos não são isentos de efeitos adversos. Náuseas, vômitos, diarreia, dor abdominal e desidratação estão entre as queixas mais comuns, especialmente quando a dose não é ajustada corretamente ou quando falta monitoramento.
Helito destaca que há situações em que o risco pode ser maior. “Pessoas com histórico de cálculos biliares podem descompensar e evoluir até com colecistite aguda”, explica. Segundo o médico, também é necessário cautela extra em pacientes com doenças pancreáticas, distúrbios gastrointestinais e condições metabólicas prévias.
Apesar disso, cresce o número de pessoas que iniciam o tratamento sem avaliação adequada, influenciadas por redes sociais ou por promessas de emagrecimento rápido. Em parte dos casos, há prescrição sem seguimento estruturado; em outros, automedicação.

Risco em anestesias: o jejum pode não ser suficiente
Um ponto ainda pouco conhecido fora do meio médico é o impacto dessas medicações no esvaziamento do estômago. Como elas podem retardar a passagem do alimento, o jejum tradicional de seis a oito horas nem sempre garante que o estômago esteja vazio.
Isso pode se tornar um problema em procedimentos com anestesia, como cirurgias, endoscopias e colonoscopias, elevando o risco de broncoaspiração, quando o conteúdo do estômago vai para os pulmões. “O perigo aumenta principalmente em situações de urgência, quando nem sempre há tempo de preparo adequado”, destaca Helito.
O médico chama atenção para outro fator: sem orientação, o paciente pode não informar que usa esse tipo de medicação, deixando a equipe sem um dado importante para a segurança do procedimento.
Falsificações e compra por canais informais
Além do uso inadequado, outro risco em crescimento é a venda de produtos falsificados. Com alguns desses medicamentos ainda protegidos por patente, versões “similares” não autorizadas não são consideradas legítimas. A compra fora de canais oficiais pode expor o consumidor a doses erradas, substâncias desconhecidas ou contaminantes.
Para Helito, a popularidade não pode substituir critério médico. “Não é atalho estético. É tratamento, com indicação, acompanhamento e revisão periódica”, afirma.
Especialistas reforçam que as canetas podem ser ferramentas valiosas no controle do diabetes e da obesidade quando usadas de forma responsável. O risco, porém, está em transformar uma inovação terapêutica em modismo, e pagar o preço com efeitos adversos, complicações e exposição a produtos irregulares.



