O que foi o Movimento Armorial? A arte nordestina que vestiu o erudito com roupa de cordel

Novabrasil
Novabrasil
Somos uma emissora que privilegia a MPB como alicerce de nossa programação, creditando ao estilo musical sua devida importância como um dos maiores patrimônios brasileiros. Nos colocamos como uma solução multiplataforma que foca em conteúdo para engajar a audiência e aproximá-las de maneira relevante e pertinente das marcas. A Novabrasil faz parte do Grupo Thathi, conglomerado de comunicação que conta com o Portal TH+, além de emissoras de rádio e televisão em mais de 400 cidades de várias regiões do país.

Em vez de ouvir violinos e pianos ao entrar numa sala de concerto, era o som de uma rabeca do sertão que ocupava o local. Em vez de óperas italianas, um aboio de vaqueiro. Ao fundo, uma tapeçaria bordada com brasões que misturam cavalos alados, corações sagrados e folhagens nordestinas.

Foi esse o choque e a beleza que Ariano Suassuna propôs ao Brasil em 1970, quando lançou o Movimento Armorial. Uma espécie de revolução estética, nascida em Recife, que queria mostrar que o popular também pode ser nobre. Que o cordel pode dialogar com Bach. Que o barroco do interior tem tanta sofisticação quanto os salões da Europa.

O Armorial foi um movimento artístico, um gesto político e poético: transformar o que sempre foi visto como “arte menor” em matéria-prima para uma arte erudita com sotaque brasileiro.

Veja também:

A faísca no mangue: o nascimento do Armorial

Tudo começou em uma noite de outubro de 1970. A Igreja de São Pedro dos Clérigos, em Recife, estava cheia. No altar, uma orquestra inédita: formada por músicos com rabeca, pífano e viola caipira, tocando composições de câmara inspiradas nos sons do sertão. Enquanto isso, ao redor, gravuras, tapeçarias e esculturas assinadas por artistas nordestinos tomavam as paredes. Era o nascimento do Movimento Armorial.

Instagram | Reprodução

Ariano, então professor da Universidade Federal de Pernambuco, batizou essa proposta com um nome que remetia à era medieval: “armorial” como os brasões, os símbolos das antigas famílias , mas com um coração sertanejo. A ideia era fazer uma arte brasileira erudita com base nas raízes populares.

Literatura, música e imagem: as três colunas do Armorial

A pedra fundamental da literatura armorial foi lançada por Ariano em 1971, com o livro “Romance d’A Pedra do Reino”. Logo na capa, ele já avisava: era um “romance armorial-popular brasileiro”. Um épico nordestino que misturava o real e o mítico, com linguagem barroca, personagens saídos dos cordéis e uma pegada quase delirante. Era literatura que dançava entre o sertão e os castelos medievais.

Instagram | Reprodução

Mas a literatura armorial não parava em Ariano. Surgiram folhetos, peças de teatro, autos religiosos e narrativas das tradições orais.

Música

Sob a batuta de maestros como Clóvis Pereira e com grupos como o Quinteto Armorial, surgiram composições que pareciam traduzir o Nordeste em som: havia frevo e fandango, mas tudo com estrutura de concerto. Tocava-se rabeca como se fosse Stradivarius, com peças compostas especialmente para instrumentos populares em diálogo com a música clássica.

A plateia era levada de um repente para uma fuga barroca. Os músicos explicavam as origens de cada ritmo, resgatavam danças de reisados e transformavam cantigas de roda em suítes sinfônicas.

Gravuras e tapeçarias

Gilvan Samico, um dos nomes centrais do moviment criou xilogravuras de traços fortes e míticos: cobras, pássaros, vaqueiros e mulheres-lua se entrelaçavam em composições que pareciam saídas de sonhos antigos.

O Boi Feiticeiro e o Cavalo Misterioso (1963), de Gilvan Samico – Enciclopédia Itaú Cultural | Reprodução

Francisco Brennand, com suas esculturas e cerâmicas, misturava o sacro e o profano em obras que lembravam templos imaginários. Lourdes Magalhães, Zélia Suassuna, Aluísio Braga tambémderam rosto, cor e textura ao movimento, com tapeçarias, desenhos e objetos que carregavam o Nordeste nos detalhes: um girassol de barro, uma estrela de ferro batido, um bordado de cobra enrolada em cacto.

Artistas que ergueram o Brasil armorial

  • Ariano Suassuna: o maestro invisível do movimento. Suassuna idealizou o Armorial e o encarnou em cada livro, aula e entrevista. Defendia que o Brasil devia “olhar para dentro” e encontrar grandeza no próprio povo.
  • Gilvan Samico: transformou a xilogravura popular em arte de galeria. Suas imagens dialogam com o inconsciente coletivo do sertão.
  • Clóvis Pereira: compositor que deu corpo à música armorial, unindo técnica clássica e emoção nordestina.
  • Antônio Nóbrega: o corpo e a voz do movimento. Começou no Quinteto Armorial e depois expandiu a proposta em espetáculos solo que misturam dança, música e poesia.
  • Francisco Brennand: escultor visionário, levou o Armorial ao tridimensional com seu universo de cerâmicas mágicas e barrocas.
Instagram | Reprodução

Mulheres do Armorial

Apesar do foco frequentemente dado aos homens do movimento, o Armorial também contou com o trabalho e a visão de mulheres que transformaram tapeçarias em brasões nordestinos e bordados em narrativas mitológicas.

Obra de Lourdes Magalhães, Homenagem a Pernambuco – Instagram | Reprodução

Zélia Suassuna, com suas telas e tecidos, costurava o cotidiano nordestino em imagens líricas e cheias de fé. Lourdes Magalhães, tapeceira de imaginação vívida, tingia figuras míticas em fios que contavam histórias de encantamento. E nomes como Ana Letícia Falcão contribuíram para ampliar os caminhos visuais do Armorial, levando seus signos para novas superfícies.

Ariano e Zélia | Reprodução

Um Brasil entre o barroco e o baião

O Movimento Armorial teve importância real para o Brasil porque propôs um novo jeito de valorizar a cultura popular: não como curiosidade ou folclore distante, mas como base legítima para uma arte erudita brasileira.

Ao reunir música, literatura e artes visuais com referências do sertão, da religiosidade popular e da tradição oral, o movimento ajudou a mostrar que o Brasil tem suas próprias formas de sofisticação e que elas não precisam copiar modelos estrangeiros para ter valor.

Hoje, mais de 50 anos depois, o Armorial continua influenciando artistas, músicos e educadores. Ainda inspira quem busca criar a partir das próprias raízes. E, num tempo em que tantas culturas locais são apagadas ou ignoradas, lembrar do Armorial é também lembrar da importância de olhar para dentro e reconhecer a riqueza que existe nos saberes, sons e imagens do nosso próprio território.

COMPARTILHAR:

Participe do grupo e receba as principais notícias de Campinas e região na palma da sua mão.

Ao entrar você está ciente e de acordo com os termos de uso e privacidade do WhatsApp.

NOTÍCIAS RELACIONADAS