Anatomia das greves nas universidades paulistas

Efeitos do ano eleitoral no interior paulista, parte 2

Foto: Sintusp

Há duas facetas das greves estudantis que são pouco debatidas, mas que são familiares para quem durante alguns anos acompanhou essas manifestações. A primeira faceta é a forma de organização e mobilização. Em geral, os movimentos de paralização e de greve nas universidades públicas pelo Brasil possuem, desde os anos 40, três pilares que viabilizam as ações contra as instituições.

O primeiro pilar são as queixas a elementos da estrutura física (restaurantes universitários, taxas estudantis, moradias estudantis etc.). Esse pilar é fundamental para garantir a adesão dos alunos rotineiros, aqueles que frequentam os espaços dos restaurantes, das bibliotecas e das moradias. Esses alunos, muitas vezes de forma inocente, aderem aos movimentos por acharem as pautas legítimas e passam, então, a compor numericamente qualquer tipo de movimento menos radical – como assembleias, passeatas, oficinas de cartazes, palestras, comícios entre outras formas de ação.

Uma vez conquistado esse público, os movimentos focam no segundo pilar: o das políticas internas (falta policiamento em áreas perigosas, falta de atenção dos gestores à saúde física e mental dos estudantes, questões de política sociais etc.). Esse pilar é responsável pela coação sentimental. Por meio desse, os alunos que não apoiam as greves – que geralmente constituem a maioria dos estudantes – são desencorajados a se posicionarem de forma contrária e, mesmo não participando dos eventos grevistas, deixam de oferecer resistência. Quem seria contra maior segurança, maior igualdade no tratamento com os alunos e melhoria da saúde? Assim, a estratégia aqui é vilipendiar paralisações os discursos de oposição e coagir através do medo e da violência aqueles que prefeririam continuar frequentando as aulas.

O último pilar é o do apoio aos servidores. Esse é mais instável, porém fundamental para que qualquer mobilização seja realizada de forma plena. Por meio dele, os movimentos de ocupação, paralização, greve, cadeiraço (que é o bloqueio de passagem com carteiras das salas de aula) são aceitos por parte considerável dos dirigentes e funcionários das universidades, que enxergam nessas ações certa utilidade e vantagem.

Essas estratégias podem ser observadas de forma mais clara nos acontecimentos das últimas semanas, que culminaram em greves, paralisações e confrontos com a polícia. Na USP, as pautas dos manifestantes que lá estão giram em torno do aumento no valor do auxílio permanência (bolsas para ajudar no aluguel ou vagas nas moradias), nas manutenções de espaços estudantis e no apoio às demandas trabalhistas da Sintusp (sindicato dos servidores). Na UNESP, os movimentos estudantis demandam aumento das bolsas de permanência, contratação novos professores e combate à violência. Na UNICAMP, os manifestantes pedem melhorias nos restaurantes universitários e na moradia estudantil, reajuste salarial aos servidores e o fim da terceirização.

Contudo, toda essa estrutura não possui somente a finalidade de atingir a reitoria e buscar mudanças nas universidades, e é aí que entra a segunda faceta das greves estudantis. Mais sutil e difícil de observar, as greves e paralisações nas universidades públicas dizem respeito à acomodação de acordos político-partidários e ao controle de uma determinada base eleitoral. O partido que organizar as massas dentro das universidades indica que possui capital político suficiente para lançar candidatos, negociar coligações e formar lideranças.

Desse modo, não é coincidência que em ano eleitoral, um mês antes das férias escolares, manifestações estudantis ganhem espaço nos noticiários. Nesse cenário, as instituições de ensino, enraizadas pelas cidades paulistas do interior, se tornam veículos perfeitos para a construção das bases partidárias que visam as campanhas do segundo semestre.

**A coluna não expressa, necessariamente, a opinião do Grupo Thathi de Comunicação.

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