François é um professor de Literatura Francesa do século 19, na celebrada Universidade Paris-Sorbonne IV. Entre seus objetos de estudo, destaca-se a vida e a obra do romancista Joris-Karl Huysmans, que marcou o movimento artístico-literário decadentista e que, na última década de vida, encontrara na espiritualidade católica o auge da noção de “beleza”, então destruída pelo mundo moderno. Diante dos desafios pessoais e acadêmicos, François busca interpretar a vida cotidiana por meio das lentes de Huysmans, vendo, assim, um mundo decadente que perde, aos poucos, aquilo que tem de belo e familiar. Sem filhos e com relacionamentos questionáveis, a apatia de François é reforçada pela estagnação profissional na universidade, agravada por um novo fato: a tomada da universidade e do país por hábitos adversos e por perspectivas estrangeiras.
Submissão, ficção escrita por Michel Houellebecq em 2015, retrata, dessa forma, o avanço da imposição de costumes e comportamentos islâmicos pela França. Da obrigatoriedade de vestimenta às mulheres ao controle do corpo docente da universidade, a obra constrói uma perspectiva de que novas regras vão sendo impostas por meio de coerção social, de estratégias políticas e do comodismo ocidental. No romance, François vê a tradicional e respeitada universidade, cuja fundação remete ao século 13, enfraquecer. O uso da burca e do hijab pelas mulheres é acompanhado da diminuição do número de professoras, da separação de salas de aula e o desincentivo político ao ingresso das mulheres no mercado de trabalho. O corpo docente passa a ser pressionado a converter-se à nova religião por meio de ameaças de aposentadoria compulsória. A Sorbonne, até então uma instituição pública, passa a ser privada e financiada pela elite saudita, alterando por completo o universo acadêmico francês e lançando François em uma viagem reflexiva pelo interior da França.
A polêmica obra de Houellebecq – que acompanha as diversas declarações pessoais do autor – é utilizada em muitos veículos e mídias como uma forma de compreender que nem todo fenômeno social no Ocidente ocorre de forma orgânica, espontânea e despropositada. Assim, a temática sobre encontros culturais e sobreposição de prioridades nacionais permite-nos questionar o problema das fronteiras na Europa contemporânea.
Na última semana, o mundo surpreendeu-se com as imagens da fronteira de Ceuta, cidade autônoma espanhola que faz divisa com Marrocos. De acordo com os relatos e as entrevistas realizadas com os recém-chegados à Espanha, mais de 50 mil pessoas foram vítimas de fake news, que afirmavam que as fronteiras estavam abertas e passagem não dependia de documentação. O primeiro resultado foi trágico. Quase 100 pessoas morreram tentando chegar a Ceuta a nado ou por terra. Os outros efeitos também não foram bons, uma vez que a migração forçada amplifica o problema do tráfico de pessoas – que já é latente na região – e da insegurança tanto dos cidadãos espanhóis quanto daqueles que migram.
Somam-se às notícias falsas as decisões do Tribunal Supremo espanhol e as declarações do primeiro-ministro Pedro Sánchez, que podem ter estimulado a crise e amplificado a gravidade da situação por interpretarem que as travessias feitas a nado não devem se enquadrar na lei de rejeição na fronteira e que equipamentos técnicos de vigilância não devem servir como delimitadores regionais.
Por fim, os dias de crise, visto do solo espanhol, ressaltam que a desestabilização das fronteiras nesse caso não foi despretensiosa e que, utilizando o exemplo ficcional de Houellebecq, as mudanças que ocorrem no âmbito cultural geram consequências mais alargadas do que a construção de uma sociedade multicultural.
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